Mostrando postagens com marcador Heráldica Histórica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Heráldica Histórica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 26 de julho de 2016

Variações das armas nacionais do Brasil entre 1836 e 1868

Como eu já disse várias vezes neste blog, a heráldica, à parte de ser uma ciência, é uma arte, e assim, as representações de armoriais podem e devem se adequar aos estilos artísticos da época quando e do local onde são criados.

Assim sendo, salvo quando seja preciso unidade e repetição, como num livro de armas ou no cabeçalho de um documento por exemplo, não se pode qualificar como absoluto um desenho de brasão. As próprias representações heráldicas variadas são prova fidedigna disto.

Esta semana, quando folheava digitalmente o meu volume de “A história dos símbolos nacionais”, de Milton Luz, encontrei os seguintes parágrafos sobre as armas nacionais do Império do Brasil:

No entanto, a aparência formal deste símbolo não foi convenientemente preservada, talvez em razão da prevalência do alegórico sobre o heráldico. Assim, as mais variadas e fantasiosas versões deste brasão se multiplicavam nas fachadas dos edifícios públicos e nas publicações oficiais. 

Com tantos problemas urgentes e prioritários, nosso primeiro Imperador não podia cuidar dos detalhes de realização e aplicação dos símbolos que criara. Provavelmente Boulanger, seu rei d’armas, negligenciara sobre esta matéria.

Esta falha persistiu no Segundo Império e mesmo D. Pedro II, tão cioso do trato das artes e das ciências, também negligenciou sobre este detalhe, de crucial importância. Assim, o brasão de armas do império ficou sujeito aos caprichos e fantasias dos artistas. Gravadores franceses, ingleses e alemães, ao receberem a encomenda de um remoto Império perdido nos trópicos e, à falta de um rígido programa que lhes disciplinasse o trabalho, davam asas à sua imaginação. Vai daí as muitas versões usadas (entre 1836 e 1868) nos cabeçalhos do Correio Oficial, do Diário Oficial do Império e no Diário Oficial – versões tão diversas e, contudo, todas elas, “oficiais”.


O autor parece ignorar a variedade artística da época, querendo comparar os mecanismos que temos hoje com a meticulosa gravação manual dos séculos passados. Se os gravadores eram franceses, alemães e ingleses, muito bem. O fariam com base no brasão, assim como antes teriam feito outras centenas. A heráldica surgiu para identificar as pessoas (entre elas os monarcas, e por extensão, seus reinos). E levando em consideração o momento artístico e as tradições heráldicas locais, surgiram desenhos como os apresentados acima. Todos eles bastante agradáveis e bastante válidos. Eu gosto em especial dos desenhos na linha inferior. Um deles leva uma coroa imperial diferente, à moda da que vemos ainda hoje timbrando uma das Colunas de Hércules, que suportam as armas do Reino da Espanha.

O brasão do império, ao contrário do que Milton Luz defende, não ficou sujeito a caprichos de artista, e sim adaptado a estilos artísticos. Um programa rígido não é necessário, pelo contrário, quanto mais simples o brasão, melhor e mais identificável ele será. Quatro das versões seguem o que manda os decretos de 18 de setembro e 1 de dezembro de 1822.


Será, d’ora em diante, o escudo d’armas deste Reino do Brasil em campo verde uma esfera armilar de ouro atravessada por uma cruz da Ordem de Cristo, sendo circulada a mesma esfera de 19 estrelas de prata em uma orla azul; e firmada a coroa real diamantina sobre o escudo, cujos lados serão abraçados por dois ramos de plantas de café e tabaco como emblemas de sua riqueza comercial, representados na sua própria cor, e ligados na parte inferior pelo laço da nação. (Decreto de 18 de setembro de 1822)

Havendo sido proclamada com a maior espontaneidade dos povos a Independência política do Brasil, e a sua elevação à categoria de Império pela minha solene aclamação, sagração e coroação, como seu Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo: hei por bem ordenar que a Coroa Real, que se acha sobreposta no escudo das armas estabelecido pelo meu imperial decreto de 18 de setembro do corrente ano, seja substituída pela Coroa Imperial, que lhe compete, a fim de corresponder ao grau sublime e glorioso em que se acha constituído este rico e vasto Continente. (Decreto de 1 de dezembro de 1822)

Em todas as representações, a descrição do escudo está respeitada, e a única delas em que parece haver diferença para as demais é a do centro, onde eu não consigo ver o laço nacional, de verde e amarelo.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

As cruzes das ordens militares luso-brasileiras

Estava lendo sobre as cruzes das ordens militares espanholas e pensei que devia escrever algo sobre as brasileiras, mais precisamente as do império, que derivam das portuguesas.

Cruzes das Ordens Militares espanholas. Em sentido horário, do topo: Montesa, Alcântara, Santiago e Calatrava.
As espanholas são quatro, as quais figuram acima. As portuguesas são três, as quais foram depois nacionalizadas por Pedro I, e adicionadas de mais três: a do cruzeiro, a da rosa e a de Pedro I. Porém, como nenhuma das três possui uma insígnia em forma de cruz, ficamos com as três abaixo:

A Ordem de Cristo surgiu em 1319, por uma bula papal que autorizava a manutenção das propriedades, posses e membros dos Templários portugueses por Dom Dinis, Rei à época. A cruz seguiu sendo a mesma cruz latina potenciada de hastes páteas dos templários, mas agora carregada de uma outra, latina, de prata.
A Ordem de São Bento de Avis surgiu como Milícia dos Freires de Évora, sendo um ramo da ordem espanhola de Calatrava então instalado nesta cidade. Os milicianos foram reconhecidos em 13 de agosto de 1162 por Dom Afonso Henriques, primeiro soberano português, e em 1211 receberam as terras onde hoje fica a vila portuguesa de Avis, e lá se estabeleceram. Com o tempo, acabaram separando-se dos espanhois e tornaram-se uma ordem portuguesa, e depois brasileira. Sua insígnia é uma cruz latina florenciada de verde.

A Ordem de Santiago da Espada vem da ordem espanhola de mesmo nome, e sua fundação está envolta em muitas hipóteses. A versão lendária conta que o próprio São Tiago apareceu e lutou junto ao Rei Ramiro I das Astúrias, na Batalha de Clavijo, no ano de 844, vestindo um manto branco com uma cruz vermelha.

As ordens espanhola e portuguesa possuem como insígnia o que se chama de cruz latina espatária, em forma de espada, com a base maior em forma de lâmina, os braços florenciados e a parte superior em forma de empunhadura, lembrando também o ícone do naipe de espadas no jogo de baralho. Já no Brasil, parece haver um pequeno erro ou mudança. O site da Pró-Monarquia exibe uma cruz espatária com os três braços superiores como sendo florenciados.




sábado, 23 de abril de 2016

O Colégio de Armas e Consulta Heráldica do Brasil, 2.

O Assunto Colégio de Armas e Consulta Heráldica do Brasil não estaria completo se eu não trouxesse de alguma forma a fonte das armas. Prometi no primeiro post deste tema, e trago, da melhor forma que me foi possível, a matéria sobre o Colégio, que aparece na Revista Mundo Ilustrado, Edição de Janeiro de 1955. Cliquem na imagem para ver em máxima resolução.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Sobre bastardos

Esses dias eu vi em um grupo de Heráldica no Facebook uma discussão sobre abatimentos por bastardia.

Em algumas casas reais, como a francesa e a portuguesa, os bastardos recebiam uma diferenciação em suas armas que indicasse a condição de ilegítimo. Na Inglaterra, há o "Bar Sinister", uma ou cotica do cantão inferior da destra ao superior da sinistra (uma contra-banda), mas que não toca a borda do escudo.

Charles Lennox, Duque de Richmond, bastardo de Charles II do Reino Unido.


No caso específico de Portugal, era um filete de negro, em contra-banda.




Noutras casas, como a de Castela e Leão, os escudos eram geralmente modificações das armas reais, mas com organização diversa da original, e não havia um "abatimento" em si. Um bom exemplo é o brasão de Fadrique, filho de Afonso XI de Castela e Leão, e de sua amante preferida, Leonor Sanchéz de Guzmán. Ele usa as armas de Castela e Leão, mas num terciado em mantel, com Castela nas duas primeiras divisões e Leão na ponta.


Mas voltando à nossa discussão, ou melhor dizendo, à discussão que eu li. Escreve o primeiro interlocutor, comentando um escudo com diferenciação.

"Mas neste escudo não aparecem as armas próprias do reino, e sim uma diferenciação por bastardia, o que é uma mácula nas armas."


Em seguida, o outro o responde.

"Se eu tivesse algumas armas reais, eu obviamente as usaria, não importando se possuem ou não diferença de bastardia."
 Essa conversa me deixou interessado em saber da opinião dos outros sobre isso. Então para hoje temos uma enquete. Quero a opinião de vocês sobre a seguinte pergunta:

Se você fosse intitulado a uma versão de armas nacionais abatidas por "bastardia", as usaria?

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O Colégio de Armas e Consulta Heráldica do Brasil

Quanto mais me aprofundo em Heráldica, mais me apaixono por esta ciência. No último dia 1, enquanto eu fingia ter mudado para umas armas novas, chegou para mim um volume da Revista Mundo Ilustrado, edição do fim de Janeiro de 1955 (61 anos, portanto). Esse volume traz em sua página central um artigo de duas páginas sobre o Colégio de Armas e Consulta Heráldica do Brasil, seus membros e um texto sobre a monarquia brasileira. Infelizmente o meu scanner é pequeno para uma cópia em qualidade satisfatória da página. No futuro, posso disponibilizar ao menos o texto integral desta publicação. Por ora, uma foto da publicação deve matar a curiosidade dos leitores.

Não tenho muitas informações sobre o tal Colégio, mas até onde eu pude apurar, foi fundado a 6 de novembro de 1951, na então capital federal, o Rio de Janeiro. Num Anuário de membros postado no ano de 1954, contava com membros na França, Luxemburgo, Espanha, Suécia, Portugal, entre outros. O escritor, genealogista e heraldista Salvador de Moya era membro correspondente da academia em São Paulo, na época deste anuário.

Seu presidente era Gustavo Barroso, um grande heraldista citado em bastantes matérias sobre heráldica e genealogia ainda hoje, e tinha como membro, além de Salvador de Moya, outro grande heraldista, também já falecido, Rui Vieira da Cunha. Este último conta com grandessíssimas obras sobre a nobreza imperial, incluindo heráldica, que no futuro com certeza quero ter em minha coleção.

As armas do Colégio de Armas e Consulta Heráldica do Brasil aparecem no topo da primeira imagem deste artigo. Não é uma impressão em cores, nem há o sistema de traços, e muito menos há um brasonamento que informe,então acabei usando do bom e velho instinto para chegar a cores para as armas. No fim, fiquei com:
De prata, uma cruz da Ordem de Cristo, com uma bordadura de azul carregada de dezenove estrelas de prata. Como timbre, uma esfera armilar. Como suportes dois bastões  rematados por duas esferas armilares de ouro, unidos por um laço de vermelho. Todo o conjunto assente num manto de vermelho, este timbrado de uma coroa antiga.
As armas do Colégio de Armas e Consulta Heráldica do Brasil.


sábado, 2 de abril de 2016

Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica

Esses dias encontrei o Grupo de Facebook do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica. Nos dois anos que morei em João Pessoa, visitei o prédio do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba em busca de alguma notícia do instituto, porém sem muito sucesso infelizmente.
Armas do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba.
O Atual Presidente do Instituto, o sr. Teldson Douetts Sarmento, parece ter iniciado em sua gestão uma tentativa de modernização deste, abraçando o século XXI e seu ícone maior até o momento, a era da informação. Espero grandes coisas deste e de todos os órgãos que passem a compartilhar conteúdo e conhecimento heráldico na Internet.

Visitando o grupo (que é público), encontrei este desenho das armas do IPGH.


Acompanha o seguinte brasão:
BRASÃO DE ARMAS DO I.P.G.H.
Escudo: de azul, seis pães de açúcar de ouro, dispostos em roquete. Chefe de ouro gotejado de vermelho.
Lema: "Fontes colamus nostros" letras de ouro sobre listel de azul.

Os seis pães de açúcar de ouro em campo de azul são os primeiros símbolos heráldicos da Paraíba, brazonado pelos holandeses. Neste escudo, representam com mais profundidade a sua origem e historia, sob o aspecto heráldico. É a alusão aos estudos heráldicos como objetivo do Instituto.
O chefe de ouro gotejado de vermelho, retrata do sangue de raças e famílias que formavam a Paraíba, muitas vezes a custa de sacrifícios e lutas. É a Genealogia na sua representação mais nobre.
O lema "Fontes colamus nostros" ou " Cultivemos nossas origens", é o apelo aos distintos propósitos da Entidade.

O Chefe, um dos conceitos mais básicos em heráldica, "ocupa a terça parte do escudo, acompanhando horizontalmente o traço superior", como cita Luiz Marques Poliano em seu "Heráldica". Este desenho está em teoria incorreto, na medida em que o Chefe ocupa mais que a terça parte do escudo, quase a metade.

Mas como nem só de corrigir vive a Heráldica, que não é só ciência mas também é arte, fica aqui também o meu desenho, onde tentei o meu melhor para reproduzir um brasão no estilo do ilustre Paulo Lachenmeyer, artista e heraldista responsável por tantos brasões do nordeste brasileiro.


Para os que não leram...

O post anterior era só uma brincadeira de Primeiro de Abril. Minhas armas não vão mudar. Seguem sendo Verde e Ouro, assim como as Armas Imperiais do Brasil.

Armas do Império do Brasil por Jenny Dreyfus.

Bom fim de semana para vocês.

quarta-feira, 16 de março de 2016

As armas dos Brito

Esses dias, andando pela rua, vi um cartaz para uma festa beneficente, organizada pela Fundação Alzira Alves de Brito, uma entidade local de assistência a idosos.


Gosto de entidades assistenciais. Seu esforço por ajudar os outros me encanta. Ainda mais quando se representa com armas. É bem verdade dizer que sem uma pesquisa genealógica estas armas talvez estejam sendo exibidas de forma incorreta, mas dessa vez eu vou me ater mais às armas em si. Sobre direito a usar armas você pode ver esse post, onde eu falo um bocado sobre.

Hoje, vamos abrir as páginas do Armorial Lusitano e falar nas armas dos Brito, que aparecem no cartaz.
Armas dos Brito. O Leão é originalmente do Jussi Kärnä, desenhista heráldico finlandês.
 As armas dos Brito são de vermelho, nove lisonjas de prata apontadas e firmadas nas bordas do escudo, postas 3,3 e 3. Cada lisonja carregada de um leão de púrpura. Por timbre, o leão do escudo. Relata ainda o Armorial que estas armas são utilizadas na Espanha. O que confirma José de Avilés em seu livro Ciencia Heroyca, nos dando o seguinte brasonamento:

BRITO en España, y Portugal , trae de gules, y nueve Losanjes de plata; cargado cada uno de un Leoncillo del campo; esto es, de gules.

Notem que estes Britos usam os leões de cor diferente. Possivelmente isso se deve ao fato que em 1780, quando a obra de Avilés foi publicada, e com frequência até 2014, o leão que aparecia nas armas reais espanholas era vermelho. Apenas com a chegada de Felipe VI ao trono, o monarca espanhol voltou a apresentar o leão em sua cor correta, o púrpura.

Armas do Reino da Espanha, versão heraldicamente correta. As armas de Leão aparecem no segundo quartel.

Assim sendo, conclui-se que estes Britos armigerados possuem alguma ligação com o Reino de Leão. Voltando ao Armorial Lusitano, passo a citar:
"Fazem alguns autores tronco da linhagem a D. Haro, Grande senhor que viveu antes de D. Henrique (pai de Afonso Henriques, primeiro Rei Português)."
Pois, se antecede a Dom Henrique, era senhor vassalo dos Reis de Leão, o que justifica perfeitamente a escolha de armas.

Uma última curiosidade. Esta aprendi recentemente, no Dibujo Heráldico, do Xavier Garcia (Link na barra lateral do blog). Ao se brasonar em espanhol, pode-se trocar o termo leones por leoncillos, quando os animais aparecerem no escudo em um número superior a quatro.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Os Aleriões de Montmorency

Comprei recentemente um novo livro. "Heráldica", de Alejandro Armengol y Pereyra, é o primeiro livro de heráldica em outro idioma que eu compro. A edição de 1933 é em espanhol, no qual felizmente não tenho maiores dificuldades na leitura.
Alerião.

Falando em Aleriões, que são figuras heráldicas similares às águias, mas desprovidas de patas ou bico, Armengol nos traz as armas dos Montmorency, tradicional família francesa do Antigo Regime, com uma pequena história, que vou contar à minha maneira, assim como já fiz com os Arminhos da Bretanha e com a Ordem da Liga. Desculpem lá se eu fantasiar muito.


O ano é 1214, dia 27 de Julho. Após doze anos de batalhas contra inimigos da Inglaterra, do Sacro Império e da Flandres, o Rei Felipe II da França finalmente vencera a Guerra na batalha de Bouvines. Os homens recuperavam-se dos ferimentos quando Mathieu de Montmorency chegou. Era um dos líderes mais feridos, mas mantinha-se em pé, mesmo sangrando. E ainda mais, trazia consigo doze estandartes imperiais (de Ouro, uma águia de negro) tomadas em combate.
 Ao receber aqueles espólios, Felipe molhou o dedo no sangue de Mathieu e passou na cruz branca de seu escudo.
- Em recompensa pela tua bravura, quero que leve agora uma cruz de gules em vez da de prata. E adicione aos seus quatro aguilhões mais doze, em recordação das bandeiras que me trouxeste.
 Segundo Armengol, as armas antigas de Montmorency eram de ouro, com uma cruz cosida de prata, cantonada de quatro aleriões. Armengol diz que o escudo é cosido de prata, e só depois que o rei pinta a cruz com o sangue de Mathieu ele passa a gules. No entanto, as armas de Montmorency mais ancestrais, de um ancestral chamado Thibaud, que viveu por volta do fim do século XI, já eram de ouro, com uma cruz de gules. Mathieu II, o personagem de nossa história, levava antes de Bouvines apenas quatro aleriões no escudo, como seu avô Mathieu I. As novas armas dos Montmorency, as quais se seguiram pelos tempos são:
De ouro, uma cruz de gules, acantonada de dezesseis aleriões de azure, postos 2 e 2.
Armas de Montmorency.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Manicongo (Rei do Congo)


Mais cedo, apareceu em um dos grupos de Heráldica que frequento um desenho das armas do Rei de Manicongo, cujo Brasão eu descrevi, pelo desenho, como sendo:
De vermelho, cinco braços armados de prata com espadas, postos em sautor. Chefe cosido de azul carregado de uma cruz flordelisada de prata, acompanhada de quatro vieiras de ouro. Ponta embutida de prata, carregada de um escudete de azul, carregado de 5 besantes de prata em sautor, ladeado por dois ídolos de sua cor partidos ao meio.

O Rei de Manicongo, expressão pleonástica, pois na língua nativa o título é Manwe Kongo, teve um primeiro contato com os portugueses por volta de 1483, numa expedição de Diogo Cão. Possivelmente impressionado com a cultura europeia, o então Rei do Congo converteu-se ao cristianismo, e passou a imitar os costumes portugueses, construindo igrejas e palácios. Este Rei recebeu de D. Manuel de Portugal (que era um grande interessado em Heráldica) uma carta de armas, que pode ser lida aqui, a partir do segundo parágrafo.

Dessa vez minha paciência para desenho heráldico não deu para desenhar os ídolos, afinal eu não sou bom com figuras mais complexas, então usei um vetor do Ssire, licenciado via Creative Commons. Fica a minha versão das armas de Manicongo.




Na segunda metade dos anos 1600, um francês a serviço de Portugal, Alain Manesson Mallet,  esteve viajando pelo mundo conhecido, e em seu livro Description de l'univers, apresenta para o Congo umas armas, às quais encontrei sendo vendidas no Ebay pintadas da seguinte forma:


Estranhei. O campo de linhas verticais para vermelho estava correto. Mas os escudetes não poderiam ser de ouro. Faltavam ali os pontilhados que indicam a cor de ouro nos escudos. Presumi que eram de prata, e para tirar a dúvida fui em busca da fonte. No Description de l'Univers, encontrei-a, agora corretamente:
de Gueules, à la croix d'argent cantonée de quatre escussons de mesme chacun chargé de cinq tourteaux de sable posé en sautoir.
Traduzindo:
De gules, uma cruz de prata, acantonada de quatro escudetes do mesmo, cada um deles carregado de 5 torteaux (besantes de sable) postos em sautor.


Assim sendo, a versão correta seria assim:



No entanto, ainda no mesmo parágrafo, outros falam da seguinte forma as armas do Congo.

de Gueules, à la croix flouronée d'argent, chargée en cœur d'un escusson d'Azur chargé de cinq besants d'Argent posé en sautoir à la bordure d'Azur chargé dans chaque angle de deux Coquilles d'Or.
Traduzindo:
De gules, uma cruz flordelisada de prata, carregada de um escudete de azur carregado de cinco besantes de prata postos em sautor. Bordadura cosida de azul carregada em cada ângulo de duas vieiras de ouro.
Nesse, para ser sincero eu fiquei com alguma dúvida. O brasonamento diz dois em cada ângulo, então o escritor pode ter considerado como ângulos apenas os cantões do chefe, já que o escudo ibérico usualmente tem pontas arredondadas. De toda forma, considerei os cantões da ponta como ângulo também. Minha versão ficou assim.


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Uma questão de proporção

Desenhar brasões tem sido meu hobby há um bom tempo. E apesar de parecer fácil, depois que se pega o jeito com os softwares de desenho, com a linguagem e com as regras heráldicas, às vezes pequenos detalhes podem complicar toda uma criação, ou por vezes até torná-la inviável, precisando ser refeita. Acho que o principal exemplo disso é quando eu trabalho com proporções.

Muitas vezes, entre uma e outra fonte há diferenças de proporção nos escudos. Vera Lúcia Bottrel Tostes, em seus Princípios de Heráldica, e Luís Marques Poliano, em seu Heráldica, defendem que o escudo, independente da forma, deve possuir sempre a proporção de oito de altura por sete de largura.

Essa proporção é a que aparece, por exemplo, nos Brasões desenhados no Arquivo Nobiliárquico Brasileiro dos Barões Vasconcelos.
Armas Imperiais do Brasil, no ANB.

Outras fontes, dentre as quais os blogs da Comunidade Heráldica Espanhola, defendem a proporção de seis de altura por cinco de largura. Seis por cinco é inclusive a proporção adotada para o desenho oficial das armas de SM o Rei Felipe VI da Espanha, de acordo com o Decreto que as concede.

Armas sugeridas para a Heráldica, por Carrión Rangel.
Curioso com essa dicotomia, eu fui pesquisar as proporções dos escudos através dos séculos. Antigamente, os escudos eram mais longilíneos. Basta um bom filme de cruzadas ou um livro com gravuras e iluminações medievais.
Infantaria Italiana 1000-1300. Ilustração de Ian Heath.

Nos anos 1500, considerados o auge da Heráldica Portuguesa, os escudos ibéricos tinham a proporção de 6 por 5. Essa proporção parece ter sido abandonada depois em Portugal e no Brasil, tendo sido substituída pela proporção francesa de 8 por 7. Assim sendo, no Brasil Império esta segunda é que era utilizada.
Qual das duas lhes parecem mais correta?

Pensando em conceitos como tempo, tradição, momento histórico da heráldica e na própria figura física do escudo, decidi manter, nos meus desenhos heráldicos, as duas proporções. Quando produzindo escudos ibéricos (boleado, português, espanhol), manterei a proporção de 6 por 5, por ser a atualmente utilizada pela única autoridade exclusivamente heráldica oficialmente em funções na península ibérica, o Cronista de Armas de Castela e Leão. Para os escudos no estilo Samnítico (Francês, ou como eu carinhosamente apelidei, Brasileiro), manterei a proporção de 8 por 7. No fim das contas tudo depende do armigerado a ser representado. Sua origem, sua história, et cetera.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Representações pouco vistas das Armas Nacionais (Imperiais)

Para o post de hoje, decidi só juntar algumas imagens que tenho aqui, com representações mais antigas das Armas Imperiais, que geralmente passam despercebidas. Com o tempo, quando eu for encontrando mais delas, o post irá sendo atualizado e ampliado.

Armas Imperiais pintadas num baú. Instituto Ricardo Brennand, Recife. Sem data conhecida.
Armas Imperiais como desenhadas no Cabeçalho da Lei Áurea, 1888.
Armas Imperiais, desenhadas para o Archivo Nobiliarchico Brasileiro, 1918.

Armas Imperiais em destaque na Bandeira do Império do Brasil.
No canto superior esquerdo, há ainda mais uma representação,
suponho que o livro com a capa armoriada seja a constituição.

Não tenho informações sobre esta, mas parece ser
uma pedra armoriada,  pintada em algum lugar.

domingo, 6 de setembro de 2015

Armas Coloniais de São Luís do Maranhão

Há alguns dias, o Ralf Hartemink, que mantém o Heraldry of the World, perguntou no grupo Heráldica Brasil, sobre algumas armas do Brasil Holandês, que foram impressas em estampas do Sabonete Eucalol. Dentre as estampas, encontrei alguns Brasões coloniais. Dentre estes, me chamou atenção o que foi atribuído para São Luís do Maranhão.

Brasão Colonial de São Luís, Estampa do Eucalol.

São Luís é uma das cidades mais antigas do Brasil. Apesar de ser parte da América Portuguesa pelo Tratado de Tordesilhas, foi fundada como Saint-Louis de Maragnan, um forte construído pelos franceses, no ano de 1612. Em 1615 os Portugueses conquistaram o forte. Em 1641, ao mesmo tempo que mantinham outras colônias no nordeste brasileiro, os holandeses conquistaram São Luís, sendo expulsos pelos ludovicenses em 1645.
As armas, concedidas em 1647, são De prata, um braço movente da sinistra, armado e sustentando uma balança, tudo de sua cor, na qual servem de pratos dois escudetes. O primeiro, mais leve, é partido de França antigo e Holanda, e próximo a ele lê-se "Vis". O segundo, mais pesado, traz as armas de Portugal; próximo a ele, lê-se "Jus", e sob ele, lê-se"Prœponderae". Por timbre uma coroa.
Este brasão significa que o Jus (Direito) Português sobre a terra pesou mais que o Vis (vigor, força) dos franceses e holandeses, e por causa disso, a cidade voltou ao poder Português duas vezes.

No processo de reproduzir estas armas, contei com dados vindos através do Brasiliana Heráldica, do Leonardo Piccioni (cliquem no link para ver a versão dele das mesmas armas).
Brasão Colonial de São Luís, segundo MEIRELES,1994; via Brasiliana Heráldica.

Note-se que a versão da estampa do Eucalol trazia "Vis", nos dois pratos da balança, enquanto que a de Meireles, traz "Jus" ao lado do brasão Português. Citando a fonte na legenda da imagem anterior:
Nas Memórias do Estado do Maranhão diz o Padre José de Morais “que pesou mais o jus, ou a justiça das armas de Portugal, que o vis ou a fôrça das de França e Holanda, com imortal desempenho do valor português, e não menor glória da valentia daqueles ilustres moradores do Maranhão”. 
Sabendo disso, optei por manter "Jus".

Outra das minhas dúvidas era se a coroa era real aberta ou mural. Não lembro de ter visto referências a coroas murais na heráldica portuguesa antes da República pelas terras de lá. Confirmei, ou ao menos baseei a minha escolha  de usar a coroa real no As cidades e villas da Monarchia Portugueza que teem brasão d'armas, onde constam diversas cidades que receberam armas ainda de D. Manuel (anos 1500), com direito a coroa real. Ainda não sou muito bom com desenhar coroas, mas gostei do resultado que obtive.

Estilisticamente falando, acompanhei o Leonardo na posição dos escudos. Enquanto que nas armas indicadas os escudos aparecem como pratos de balança, eu os deixei da forma mais natural, afinal, o que está sendo pesado são os escudos, não qualquer coisa sobre eles. Por fim, o leão no escudete franco-holandês. No Eucalol e em Meireles, o campo é azul, enquanto Piccioni usa as armas modernas de Nassau. Mas a meu ver, as armas que seriam mais corretas ali seriam as da República das Sete Províncias. O leão dourado de Nassau sobre campo vermelho, sustentando uma espada e flechas (estas últimas não aparecem na imagem, lapso meu, logo será corrigido).


Armas Coloniais de São Luís do Maranhão, minha versão.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Eduardo e a Liga

A Liga, por Rs-Nourse @Wikimedia Commons
A heráldica sempre foi uma matéria onde homens tiveram precedência. Mas vez por outra, mulheres participaram ou foram responsáveis por histórias que acabaram por refletir na ciência e arte da Heráldica. Hoje, tenho mais uma história.

Assim como já contei, anteriormente, a história de Ana da Bretanha, de forma mais ou menos fictícia, hoje trago uma outra. De como o Rei Eduardo III da Inglaterra criou uma das mais importantes Ordens Honoríficas do Mundo, movido por honrar uma de suas amantes, Catherine Montacute.


Conta-se que Eduardo III era apaixonado por Catherine Montacute, Condessa de Salisbury. Em 1341, fez com que até mesmo um cerco que tinha sido armado ao castelo onde ela estava fosse desfeito, apenas para encontrá-la na ausência do marido.
Mas a cena que mais se conta é a seguinte:
Calais, 1348.
O Rei Eduardo, um cavalheiro, aproveita um baile em sua corte. Decerto, olhos atentos a Catherine. Desejoso de estar com a sua amante,  (Mas que Rei não estaria?) tira-a para uma dança. A determinado momento, a liga azul que prendia a meia de Catherine solta-se e cai. Prestativo, Eduardo apressa-se a devolver-lhe a peça de vestuário, diante dos olhares e sorrisos maliciosos e trocistas das pessoas ali presentes. Catherine, atingida por aqueles olhares maldosos, como que dissessem "Esta liga já caiu em outros momentos. Todos já sabem aqui que és tu que deita-se na cama do Rei", perturba-se e chora.
Eduardo III, via cigcardpix@Flickr

Vendo aquela cena, o Rei parecia irritado. Evidentemente, não gostou que aquele tratamento fosse dado à Catherine. Ora, ela era sua amante, e ele era o Rei. Ninguém tinha nada a ver com aquilo. Ele era o Rei, e podia ter amantes. Aquilo era comum para a época. Quem o impediria? 
Honni soit qui mal y pense! Tel qui s'en rit ajourd'hui, demain s'honorera de la porter!
-Envergonhe-se quem vê malícia nisto! De forma que riem hoje, amanhã se honrarão de portá-la. - Eduardo trazia a liga na mão e devolveu-a em seguida a sua legítima dona.
Insígnias da Ordem da Liga
Dito e feito. Logo a Ordem da Liga ou Ordem da Jarreteira (em inglês, Garter) era, como ainda é até hoje, a mais importante Ordem do Sistema Honorífico Britânico.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Vlad III Draculea, príncipe da Valáquia

Esqueçam essa história de Vampiro, ao menos por aqui. Vladislaus Draculea, também conhecido como Tepeș (Empalador), foi Príncipe da Valáquia por três vezes, tendo sido um dos mais bravos soberanos guerreiros cristãos da Europa do Leste, na luta contra a expansão muçulmana para a Europa, nos anos de 1400.
Desenho das Armas de Vlad III Draculea, por Radu Tiron
Muito do que fez Draculea passar a ser conhecido como Drácula é decorrência de suas atrocidades contra seus inimigos. Com o tempo, outros fatores contribuíram para enodoar mais ainda a reputação de Draculea. Vlad II, pai de Draculea, recebeu o apelido de Dracul (Dragão) ao receber a Ordem do Dragão, honraria do Sacro Império.

No idioma romeno moderno, a palavra Dracul significa também diabo. Assim sendo, com o tempo e com suas histórias de atrocidades cometidas em combate espalhadas pela Europa, Draculea passou a "Filho do Diabo", o que levou à criação da história do Conde Drácula.

No fim das contas, o mito que se criou à volta de Draculea é apenas isso, mito. Até hoje, na Romênia e na Moldávia, ele é reconhecido como heroi, por defender a cristandade do avanço otomano.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Paraíba Holandesa

Eu moro na Paraíba, um dos estados brasileiros que foi dominado pelos holandeses, durante o século XVII. Estranhos pensamentos por vezes me levam a imaginar que se os holandeses não tivessem sido expulsos, waarschijnlijk zou ik het schrijven van dit artikel in het Nederlands. 

O legado deixado por João Maurício de Nassau-Siegen no nordeste brasileiro não foi meramente comercial, apenas cuidando da Companhia das Índias Ocidentais. Ele cuidava da administração da Colônia de forma inteligente, e até mesmo criou brasões para as capitanias.

Em 6 de novembro, em uma carta enviada à Assembleia Holandesa, Nassau informava, dentre outras coisas, que dispunha-se a organizar brasões alusivos à paisagem e à economia local. A história completa vocês podem conferir nesse artigo da revista Leituras da História. Aqui, ficaremos apenas com a Paraíba.
Parayba (1647): Gravura baseada em desenho de Frans Post, mostra o Brasão imaginado por Nassau.

O brasão organizado por Nassau para a Paraíba é de azul, carregado de 6 pães de açúcar, dispostos 3, 2 e 1, representando o poderio paraibano na produção açucareira. Como timbre, uma coroa.

  
Minha versão ficou um tanto mais simples, tentei buscar entre as coroas da Heráldica de Domínio Holandês a que mais se aproximava da desenhada por Post, mas como a gravura feita por ele era mais artística que heráldica, satisfiz-me com a coroa que consegui montar, usando uma coroa holandesa como base.

Para concluir, apenas mais um aviso. Instalei o Livefyre no blog, assim não é necessário responder nenhuma pergunta para confirmar os comentários (acredito que nenhum dos leitores seja um robô), e dá para comentar usando o perfil do Facebook.