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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Como eu faço pesquisa heráldica

Recentemente eu expliquei, pela enésima vez, que brasões de família não existem, e que as armas são passadas a pessoas. Isso acontecia através das Cartas de Brasão, como por exemplo a da Baronesa de Sertório, que eu publiquei aqui anteriormente.

Munidos desta informação, algumas pessoas vieram me perguntar como eu fazia para encontrar as armas que se relatavam ao seu sobrenome, para conferir se de fato tinham direito ou não a usá-las. Após responder umas quatro vezes, decidi deixar aqui um tutorial, usando livros que eu já disponibilizei aqui no blog. Há mais livros, mais fontes, muitas delas estão em mau estado ou indisponíveis. Este é apenas um guia básico que vai permitir que você inicie a sua procura.

Um aviso. O Armorial Lusitano é dispensável.

É estranho quando você descobre que algo que você considerava essencial não é tão necessário para a sua pesquisa. Mas é isso mesmo.

Uma coisa que vocês precisam saber é: Praticamente todos os empreendimentos que vendem brasões são baseados em violação de Direito Autoral. O Armorial Lusitano não está em Domínio Público, então qualquer reprodução para fins comerciais é veementemente proibida. O que esses vendedores de imagens de brasões fazem é simplesmente copiar o texto que vem no Armorial Lusitano e desenhar o brasão com clip-arts semiprontos. O Armorial Lusitano também não fornece nenhuma prova ou indicação genealógica (ao menos não a edição que eu tenho acesso).



Em vez de idolatrar uma história falsa, e de perder tempo com o Armorial Lusitano por ora, vamos a fontes mais credíveis e o melhor, disponíveis de forma gratuita. Vamos começar procurando no "Armaria Portuguesa'' de Anselmo Brancaamp Freire, com um sobrenome aleatório: Gusmão.



Como vocês podem notar, há o brasão de um ramo de Gusmão na imagem acima. Mas vamos nos atentar o detalhe que eu marquei: C.B. em 1780 (A.H., 1563). Bem no começo do livro,nas abreviaturas, podemos ver que C.B. significa Carta de Brasão e que A.H. Significa Archivo Heraldico, mais especificamente, o Archivo Heraldico-Genealogico do Visconde de Sanches de Baena.

Sabemos então que este brasão de Gusmão aparece numa Carta de Brasão passada em 1780, e está registrado no Arquivo de Sanches de Baena sob o número 1563. Indo diretamente para este arquivo (também está no link acima), encontramos o seguinte registro.




Bom, já sabemos quem usou este brasão, e como usou. A partir daqui, pode-se começar a pesquisa genealógica, seja até o armigerado, seja a partir dele. Mas isto é assunto para outra publicação, talvez até mesmo para outro blog, afinal genealogia não é o meu forte.


De toda forma, aproveitem a dica e os livros!

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Brasões de Família não existem

O título é auto-explicativo. Mas eu vou repetir, e em Caps Lock.

BRASÕES DE FAMÍLIA NÃO EXISTEM.

NÃO JOGUEM SEU DINHEIRO NO LIXO.

A comunidade internacional é unânime, e nós também precisamos ser: Armas são concedidas a pessoas, e não a famílias. O que existe é o brasão pessoal, que é passado de pais para seus filhos através de herança, como um livro, um quadro ou qualquer outra propriedade. 

Apenas através de pesquisa genealógica você pode descobrir se algum de seus ancestrais recebeu carta de brasão de algum monarca ou colégio heráldico. Caso não encontre, você não possui herança heráldica, o que é o caso da maioria das pessoas, e não te impede de criar o seu próprio brasão. 

O que você NÃO PODE é usar o brasão de alguém que não tem nenhuma ligação familiar com você. Isso é desonesto e de péssimo gosto. 

O François Velde, idealizador do Heraldica.org, cravou uma vez a seguinte máxima:

Originalmente publicado no grupo Heráldica Brasil, no Facebook.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Leoas

O Leão é sem dúvida uma das figuras heráldicas mais comuns, se não a mais comum de todas. Mas eu vi algo que me chamou bastante a atenção hoje. A seleção Neerlandesa de Futebol Feminino ganhou um emblema próprio. Sai o leão rampante, entra a leoa rampante.


É inteligente, é criativo, e é representativo. Eu pessoalmente gosto desse tipo de avanço em Heráldica. Apesar de que não é bem novidade. De fato, não é comum. Mas não é novidade. Fui procurar na Wikipédia, e encontrei para a cidade de Hombourg, Alsácia:

Armas de Hombourg. Domínio Público; via Wikimedia Commons


"De azul, uma leoa parada de ouro, amamentando dois leõezinhos do mesmo"

Fui tentar confirmar, mas a falta de fontes quase teria me deixado sem confirmação. Mas foi só olhar na página web comunal de Hombourg, e lá está a leoa amamentando suas crias. 

No excelente site Heraldica, de François Velde, há mais um brasão, desta vez para Joseph-Laurent Demont, Conde do Império Francês (1818):
De azul, uma leoa nascente de ouro, acompanhada em chefe de duas granadas do mesmo.

A leoa, em representação heráldica, assim como na sua forma real, não possui juba e evidentemente não possui genitais. Pensei em discutir ainda sobre isto, mas considerando que não há palavra amplamente conhecida em português para definir o leão heráldico castrado, e ainda que é mais sensato lembrar que não é de boa heráldica desenhar machos de animais sem seus órgãos genitais, encerro a publicação com uma comparação entre o leão neerlandês e a leoa neerlandesa

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Regras Heráldicas: A recomendação primária



Desculpem a demora. O fim de ano foi corrido, e o começo mais ainda, com o início da nova graduação. O Heráldica Brasil segue bem ativo, sempre podem visitar lá.

Hoje, para concluir a série das seis regras heráldicas, a mais simples depois que você aprende, mas mais complicada de explicar. Tanto que há semanas eu começo, escrevo, paro, apago e reescrevo tentando explicar. Me sinto melhor para explicar essa regra como designer do que como heraldista. Vamos a ela.
6. Um brasão deve ser regular, simples e completo.

Ontem eu consegui um bom exemplo. Ou melhor, um péssimo exemplo.

Um amigo me mandou o "brasão" que um ilustre anônimo propôs num grupo de monarquistas. Eu, apesar de monarquista, parei de frequentar esses grupos justamente pelo péssimo gosto (político ou heráldico) da grossa maioria de seus membros. Mas avançando de volta para o assunto, vamos comparar a imagem que o meu amigo me mandou, com os conceitos que estamos tentando seguir aqui.

Vejam a imagem aqui. Já avisei anteriormente que é péssima.


Regularidade: Brasões, como peças de arte, como cultura material, possuem uma configuração visual básica, velha conhecida dos bons heraldistas, em nível elementar. Quem não lembra dessa imagem?
Todos os direitos reservados. Genealogias.Org.
É uma das imagens que provavelmente ensinou os princípios básicos da heráldica a todos os heraldistas da minha geração. Ela acompanha uma excelente introdução à Heráldica. Percebam a regularidade, a ordenação visual. E comparem com a imagem anterior, quanto ao uso de cores, as imagens utilizadas e o cuidado visual. O segundo brasão vence, e por muito. A diferença na unidade da composição é notável. O segundo está encaixadinho. O primeiro parece uma colcha de retalhos.

Simplicidade: Acredito que vocês, caros leitores, se não sabem, devem ter pelo menos uma vaga ideia de porque a heráldica surgiu. Se pensou em "para identificar homens de armas dentro de camadas e mais camadas de metal", acertou! A função primordial da heráldica é a identificação. Tudo bem, tenho que dar o braço a torcer que eles serão identificados como o grupo monarquista com o pseudobrasão mais estranho de todos. Mas não é a esse tipo de identificação a que me refiro.
(c) Ian Heath 1989
Completitude: Ter um brasão completo é ter um brasão onde todas as peças necessárias apareçam, sem esquecer de nada: Esmaltes, atitudes das figuras, timbre correto. Um dos maiores erros dos pseudo-heraldistas é sobrecarregar as composições, por medo de esquecer. Colocam coisas de mais, e sai, como diz o vulgo, uma papagaiada. Na imagem linkada, o autor pecou pelo excesso. De menos é muito pouco, e de mais, é demais.

E como sabemos o que é de menos e o que é de mais? Lendo. Pesquisando. Conhecendo. Nunca é demais seguir aprendendo.

Isso conclui a série de seis regras para boa heráldica. Nos próximos dias, teremos uma volta aos posts, ainda não sei se tímida ou mais incisiva. Fiquem de olho!

domingo, 15 de janeiro de 2017

Arminhos naturais

Este é o centésimo post deste blog! E hoje o tema é meu animal preferido. O Arminho, que está no timbre das minhas armas, é um pequeno mamífero da família dos mustelídeos.
O Arminho coroado, meu timbre, desenhado pelo David Fernandes, grande desenhista heráldico português.

No Japão, ele representa boa sorte. Na Europa, pureza. Quando aparece o animal, ele é brasonado como "arminho natural", já que "arminhos" se refere ao forro.

Sobre um virol de ouro e verde, um arminho natural, coroado de ouro.

O arminho é um animal que muda de cor. No verão ele fica com o dorso castanho e a barriga cor de creme. No inverno ele é quase todo branco, mas a ponta da cauda se mantém sempre preta. Essa pelagem branca, com apenas um pontinho preto, tornou-se bastante cobiçada para mantos.

De arminhos, pleno.


Apesar de ser famoso por esta peculiaridade, o fato de eu ter escolhido o arminho como timbre é outro. É o fato de que esses pequenos e ágeis animaizinhos, apesar da aparência dócil, possuem força suficiente para atacar até mesmo animais maiores, como coelhos.

Mais sobre a vida e os hábitos desses bicharocos, no vídeo abaixo:


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Regras Heráldicas: A regra das tonalidades


A quinta regra da heráldica (Confira todas clicando aqui) também é extremamente simples, e é uma das mais quebradas pelos iniciantes em heráldica. Ela se refere mais ao desenho heráldico que à heráldica em si, mas é uma das mais importantes. Eu a chamo de regra das tonalidades, apesar de que o nome devia ser o oposto, regra de não-tonalidades,

5. Não há tonalidades diferentes de uma mesma cor.
Eu já expliquei, na publicação Paletas de Cores, de três anos atrás, que não há códigos de cor obrigatórios para representar heráldica. Cada desenhista usa a paleta que lhe agrada mais.
Minhas paletas de cores heráldicas, que uso primariamente para os desenhos exibidos neste blog.
Há ainda a liberdade de se usar claros e escuros como se preferir em heráldica, afinal ela é uma arte. Eu também já mostrei algumas forma de fazer isso bem recentemente, no post Questão de estilo. E aqui é que entra a regra. Claros e escuros em um mesmo tom, estejam à vontade. Mas não vale misturar dois tons de uma mesma cor. Vale lembrar que no começo eram apenas sete cores, e que algumas cores eram mais caras que outras. Um exemplo, um quê de absurdo, segue-se.

Pensem nas seguintes armas: De azul, seis lisonjas de ouro, acompanhadas em chefe de uma estrela do mesmo.
Atenção na bagunça visual!
A imagem acaba se tornando meio autoexplicativa quando se recorda os fatos explicados. Com mais ou menos acuidade visual, todos os tons nas lisonjas da primeira imagem podem ser podem ser usados para representar a cor "Ouro". Porém, usar mais de um tom de uma vez acaba tornando tudo uma grande bagunça! Então lembre. Na hora de desenhar, escolha apenas uma cartela de cores!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Regras Heráldicas: A Regra das figuras múltiplas


A quarta regra é a mais fácil de explicar. Ela se refere a figuras múltiplas.

Se você não leu as três anteriores, confira aqui a primeira, a segunda e a terceira.
4. Muitas peças móveis, ou figuras, pousadas sobre o mesmo campo tem sempre o mesmo esmalte, desde que sejam elas repetidas sem alterações.
 Quando você tem várias vezes uma mesma figura no campo, desenhá-la com cores diferentes dificulta na identificação. Imaginemos um diálogo entre dois soldados:

-Quais são as armas do cavaleiro Sir James? - pergunta o primeiro.

-De ouro, com sete leões, O primeiro de azul, o segundo de verde, o terceiro de vermelho, o quarto de prata, o quinto de preto, o sexto de sua cor e o sétimo de arminhos. - responde o segundo.

Sentiram o drama? É uma dificuldade a mais que se coloca para um brasonamento ser satisfatório! Se as armas de Sir James fossem de ouro com sete leões de azul não seria muito mais fácil?

As armas dos Brito. De vermelho, nove lisonjas de prata apontadas e firmadas, cada uma carregada de um leão rampante de púrpura. Imagina se cada leão fosse de uma cor.
Amanhã, a quinta e penúltima das regras. Esta série encerra-se na noite de natal!

domingo, 27 de novembro de 2016

Regras Heráldicas: A regra das figuras


A série das regras heráldicas continua, e hoje temos a terceira regra. Você pode seguir para as duas publicações anteriores nos links a seguir:
  1. A regra dos esmaltes
  2. A regra das peças
Prosseguindo. A terceira regra da heráldica trata das figuras. A diferença das peças para as figuras é que as primeiras possuem tamanho definido e originalmente representam "honras". Figuras são mais elaboradas, com desenhos vivos e detalhados. Objetos, corpos celestiais, animais e figuras quiméricas são as figuras mais comuns.
3. As figuras naturais ou quiméricas, quando sozinhas, devem ocupar o centro do campo sem tocar em seus bordos.
Esta regra tem a ver com o posicionamento das figuras. Para ser vista, a melhor forma de se exibir uma figura é no centro do campo e ocupando o máximo possível de espaço, mas sem tocar os bordos. Para exemplificar, vamos ver a posição das figuras em seus respectivos campos.

Tanto o Leão quanto os castelos estão centralizados e ocupam o máximo possível de seus campos, sem invadir o campo das outras figuras.
Quando o formato do escudo e as figuras não se complementam, os espaços ficam vagos. Mas ainda assim, a figura está centralizada. Se ela aumentasse, tocaria os bordos do campo.



sábado, 26 de novembro de 2016

Regras Heráldicas: A regra das peças


A primeira regra da heráldica, também conhecida como regra áurea ou regra dos esmaltes, já foi explicada, e clicando neste parágrafo, você pode visitar a publicação.

Agora, continuando com a série, falaremos das peças. A segunda das regras fundamentais da heráldica diz que:

2. As peças honrosas devem ser colocadas nos lugares que lhes competem.

Sobre isso, vamos recordar o conceito de peças honrosas. As peças honrosas são figuras simples desenhadas sobre o escudo, que representam figurativamente o cavaleiro em batalha. Partindo do princípio da divisão do escudo em nove partes, podemos reconhecer algumas peças. que representam tradicionalmente a terça parte do escudo, segundo Armengol e Poliano.

Na primeira fila: A pala, a faixa, a contrabanda e sua irmã mais nobre, a banda.
Na segunda fila: a cruz e o sautor,

A regra diz que as peças devem ser colocadas nos lugares que lhes competem, ou seja, sempre ocupando a terça parte do escudo. Porém eventualmente a terça parte do escudo pode ser espaço demais, dependendo do desenho. Num escudo ibérico, de base redonda, a parte inferior perde muito de seu tamanho. Notem na banda e na contrabanda o pouquíssimo espaço neste setor. Para solucionar este problema da falta de espaço, acostumou-se, sem prejuízo ao brasonamento, estreitar estas peças, para ocuparem excepcionalmente menos que a terça parte, quando as peças vierem acompanhadas por figuras que precisem de espaço.
CAMPINA GRANDE: Asna estreitada para acomodar as espadas
MONTMORENCY: Cruz estreitada para acomodar os aleriões

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Regras Heráldicas: A regra dos esmaltes


Estava relendo posts antigos deste blog. Este ano é de longe o mais ativo. Eu falei sobre adoção de armas pessoais, falei sobre uma sociedade heráldica que de heráldica não tem nada, falei de outra sociedade de heráldica, que até tem heráldica, mas que infelizmente não funciona, falei dos brasões dos Vice-Reis do Brasil, expliquei que brasonar e embrasonar não é a mesma coisa, falei até mesmo da Branca de Neve. Mas tem uma coisa que eu nunca postei aqui, e acabo de me dar conta. As Regras Fundamentais da Heráldica. Nos próximos dias, vou explicar uma a uma as seis regras da heráldica, justificando-as e dando exemplos.


1. Não se deve sobrepor metal sobre metal, cor sobre cor ou forro sobre forro.
 A primeira e mais famosa das regras, nos lembra da separação básica entre os esmaltes. As tonalidades usadas na heráldica dividem-se em metais (ouro e prata), cores (azul, vermelho, preto, púrpura e verde) e forros (arminhos e veiros).

As cartelas tonais que eu uso para desenhar heráldica digital.
Estas tonalidades foram divididas assim para facilitar na hora de combinar cores, garantindo que durante uma batalha, adversários e inimigos seriam facilmente reconhecidos, pelo contraste.

Batalha de Navas de Tolosa, Julho de 1212. Mais de trinta mil soldados. Imaginem se não tivesse como reconhecer esse povo todo.

Neste caso, evitava-se colocar uma figura ou peça de um metal sobre um campo também de metal, para não ficar difícil de ver, com o sol refletindo nos escudos e a distância entre os combatentes. Exemplificando. Olhe para a imagem abaixo. De cima, de baixo, de lado, afaste-se da tela, veja de longe, de perto, com um foco de luz, de todas as formas que puder... Tente ver como um soldado medieval veria, e note a importância do contraste.
Se contrasta, combina. Se não contrasta, não combina.
Esse princípio segue em uso ainda hoje, quando se precisa facilitar a visualização de coisas, como por exemplo nas placas dos carros:

Atenção: a regra diz não sobrepor. O que quer dizer que está tudo bem, por exemplo, partir um escudo de prata e ouro, para representar duas armas diferentes:
Estas armas, Partido de "Castro" e "Meneses", não violam a primeira regra da heráldica, pois não há sobreposição, mas divisão.
Nas próximas publicações, as outras regras serão devidamente explicadas. Não vão para muito longe!

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Heráldica de Clip-arts


Seguindo com o assunto Heráldica Digital, que eu comecei na segunda-feira (Clique aqui para ir ao post anterior) falando sobre quem usa softwares para verdadeiramente desenhar heráldica. Mas a grande maioria das pessoas não foi treinada para desenhar, e sim para uma miríade de outras funções, físicas ou mentais. Para estes, resta, com mais ou menos esforço, usar material pré-fabricado, os chamados clip-arts.

Muita gente não gosta. Há quem considere uma ofensa. Há quem nem sequer fale no assunto. Mas eu decidi falar.
  1. Clip-art não é arte heráldica. Na faculdade de Design, a gente discutiu o conceito de arte. Entre as milhares de possíveis definições para arte, eu fiquei com a seguinte na minha cabeça: Arte é qualquer criação humana, original em seu conceito, para fins de fruição. A heráldica de Clip-arts até pode ser criada para fins de fruição, mas o fato de reaproveitar materiais acaba criando algo que não é original, tornando o processo algo artificial, repetitivo, mecânico.
  2. Clip-art é útil. Sim, pode não ser arte e muitas vezes não ser agradável aos olhos. Mas a Heráldica de clipart funciona para o fim a que se propõe. Suponhamos que você é um advogado que precisa enviar um brasão para que um artista heráldico o desenhe. Se você não for bom em brasonar, basta enviar um desenho, mesmo que feito com peças pré-fabricadas. O artista compreenderá perfeitamente o que você procura, e a informação terá sido dada com sucesso.
  3. Saber usar clip-art não faz de você um heraldista. Ser um heraldista envolve muito estudo, esforço, paciência e diria até mesmo um pouco de habilidade artística.

Dito isso, o básico da heráldica de clip-art pode ser feito usando um software simples, o Paint. Com os clip-arts certos e um pouco de paciência você pode chegar a um resultado como esse:

De prata, uma faixa de azul carregada de um navio de sua cor, entre três estrelas de seis pontas, de vermelho, duas em chefe e uma na ponta.
Há ainda a possibilidade de elaborar mais o trabalho usando material e softwares vetoriais e de edição de imagens, mas decidi não me delongar no assunto desenho desta vez, porque não é este o foco. Na página de links, na seção referências, há algumas páginas com Cliparts. Vocês podem usar à vontade, mas não se esqueça de atribuir créditos aos criadores.

sábado, 9 de julho de 2016

Breve pausa (já em curso)

A redação deste blog (que também é o meu quarto) vai no quarto dia de reforma, caros leitores.

Estes dias, estou acordando cedo, junto com o sol.
De vermelho, um sol em esplendor de ouro

E sigo sem sinal de internet, graças às tomadas desligadas. Com dados móveis, publicar  é mais complicado.

Acabo ficando mais tempo no Whatsapp 🛡,
Escudo entre os emojis do Whatsapp: partido encaixado de vermelho e prata.

assistindo séries norte-americanas...
Suposto escudo com as armas dos Estados Unidos. De prata, seis palas de vermelho, chefe de azul, pleno.
...ou japonesas.
Susposto escudo heráldico do Japão, De vermelho, o selo imperial do crisântemo de ouro.

O plano é retornar na semana que vem. E quem sabe com algumas coisas bem bacanas.
Minhas armas com dois arminhos como suportes. Bonitinhos!


terça-feira, 19 de abril de 2016

Sobre bastardos

Esses dias eu vi em um grupo de Heráldica no Facebook uma discussão sobre abatimentos por bastardia.

Em algumas casas reais, como a francesa e a portuguesa, os bastardos recebiam uma diferenciação em suas armas que indicasse a condição de ilegítimo. Na Inglaterra, há o "Bar Sinister", uma ou cotica do cantão inferior da destra ao superior da sinistra (uma contra-banda), mas que não toca a borda do escudo.

Charles Lennox, Duque de Richmond, bastardo de Charles II do Reino Unido.


No caso específico de Portugal, era um filete de negro, em contra-banda.




Noutras casas, como a de Castela e Leão, os escudos eram geralmente modificações das armas reais, mas com organização diversa da original, e não havia um "abatimento" em si. Um bom exemplo é o brasão de Fadrique, filho de Afonso XI de Castela e Leão, e de sua amante preferida, Leonor Sanchéz de Guzmán. Ele usa as armas de Castela e Leão, mas num terciado em mantel, com Castela nas duas primeiras divisões e Leão na ponta.


Mas voltando à nossa discussão, ou melhor dizendo, à discussão que eu li. Escreve o primeiro interlocutor, comentando um escudo com diferenciação.

"Mas neste escudo não aparecem as armas próprias do reino, e sim uma diferenciação por bastardia, o que é uma mácula nas armas."


Em seguida, o outro o responde.

"Se eu tivesse algumas armas reais, eu obviamente as usaria, não importando se possuem ou não diferença de bastardia."
 Essa conversa me deixou interessado em saber da opinião dos outros sobre isso. Então para hoje temos uma enquete. Quero a opinião de vocês sobre a seguinte pergunta:

Se você fosse intitulado a uma versão de armas nacionais abatidas por "bastardia", as usaria?

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Livro de Heráldica Grátis

Não, não é nenhuma propaganda enganosa ou chamariz para "lojinha de brasões". Enquanto pesquisava a internet em busca de novos livros de heráldica brasileira, encontrei uma versão digital do "Princípios de Heráldica", obra da diretora do Museu Histórico Nacional, Vera Lúcia Bottrel Tostes.


Princípios de Heráldica é uma interessante cartilha para os inciantes, mas peca por erros crassos, como por exemplo na nomenclatura das cruzes e em insistir chamar sautor de SANTOR.

Armas de Catolé do Rocha. De prata, três palas de verde. Sobre o todo, um SAUTOR de vermelho carregado de 5 vieiras de ouro.
Para além dos erros básicos, há ainda comentários, mesmo neste blog, que informam que a autora retém, fora do alcance público, documentos importantes do Colégio de Armas e Consulta Heráldica do Brasil, assunto que já tocamos aqui. Pessoalmente, não tenho muito o que dizer sobre este assunto, já que não a conheço. No entanto, como diria a meu pai, a cavalo dado não se olha os dentes, e considerando a escassez de livros brasileiros sobre o tema, vale muito compartilhar!
Clique aqui para acessar.

terça-feira, 22 de março de 2016

Registros Heráldicos

A República efervesce lá fora. Aqui dentro, no âmbito da minha monarquia particular de alguns metros quadrados, vivemos eu e a princesa Manuela, uma filhote de Jabuti que fez morada nos cantos escuros deste reino-quarto, onde está tudo em paz. Por aqui ainda não se vê armoriais enfeitando as paredes, mas quem sabe um dia não consiga alguma certificação, mesmo que extra-oficial, para colocar por aqui. Para hoje, no segundo artigo na série de dicas para a realização de suas próprias armas (Confira o primeiro artigo aqui), vamos falar de registros e certificações privados de heráldica, pois infelizmente a maioria das nações carece de um Rei de Armas ou de um corpo heráldico oficial.


Para garantir que suas armas sejam reconhecidas, é muito importante que você as exiba. Afinal ninguém quer que armas iguais às suas apareçam. Além disso, é importante também que você as adicione o seu brasão a registros. Serve para garantir provas num eventual caso de usurpação de armas.


Em caso de você ser brasileiro e possuir algum parente enobrecido na família, é bom consultar o Instituto da Nobreza Portuguesa, que parece lidar com matérias destas, inclusive de brasileiros. Às vezes, a diferenciação correta no brasão é necessária, para garantir que você não use o mesmo brasão de um parente. Um e-mail pode ser enviado com mais dúvidas para o Secretário do INP, apesar de que eu não tenho certeza se ainda este e-mail está ativo. Para todos os efeitos, pode-se tentar ainda o endereço físico, que para este não há falha.
Desenho das Armas do INP por Miguel Boto.

Palácio Fronteira
L. S. Domingos de Bemfica, 1
1500-554 Lisboa, Portugal

Caso você não consiga traçar seu caminho genealógico até nenhum nobre e tenha escolhido registrar armas novas, há alguns registros na internet, para os quais você pode enviar suas armas pessoais.

O Registro Heráldico Brasileiro, do Leonardo Piccioni, grande heraldista do qual eu já falei algumas vezes aqui no blog, é um dos mais simples e acessíveis. Todas as informações e como pedir o registro estão na página.

Internacionalmente, há mais alguns registros, e alguns deles emitem certificações. Alguns registros são gratuitos, como é o caso do Registro do Heraldry of the World, sediado na Holanda, do RIAG, Registro Internacional de Armas Gentilicias, sediado na Espanha, e o do United States Heraldic Registry, sediado nos Estados Unidos. No entanto, por uma pequena taxa, estes dois últimos podem criar uma certificação, que mesmo que não tenha valor legal, faz um bonito quadro para se pendurar na parede. O RIAG cobra 75 Euros, e o USHR cobra entre 20 e 100 dólares pela certificação. O segundo pode enviar o certificado em PDF, para que você mesmo o imprima.


Saindo dos registros gratuitos e indo para os pagos, há o Armorial Register, que cobra entre 100 e 110 libras pelo registro, que inclui um certificado simples, e mais 45 libras por uma certificação graficamente elaborada. Este registro é publicado periodicamente. Já foram dois livros, que também estão disponíveis no website deles.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Brasonar e Embrasonar

A palavra Brasão, no meu entendimento, se refere aos itens que formam as armas, independentemente do desenho. Por isso, eu considero mais importante diferenciar brasonar de embrasonar.

Brasonar significa criar um brasão, posto que ele é o item formador das armas. Por exemplo: Se eu digo que tenho um brasão com uma cruz verde sobre um campo branco, e nos espaços deixados pela cruz eu tenho quatro Flores de Lis também verdes, eu estou brasonando, porque essa é a definição daquelas armas.

Brasonar é algo relativamente simples depois que você aprende o vocabulário próprio. Mas se você não sabe, não há mal, afinal sempre há a capacidade de embrasonar.

Embrasonar é representar visualmente o brasão. Isso pode ser feito de inúmeras maneiras. Pintura, escultura, gravação em metal, desenho, xilogravura, impressão, colorido, preto e branco, em pedra, papel, vidro... Eu poderia passar uma semana falando e não pararia de encontrar meios e materiais satisfatórios para a representação heráldica. Vamos pensar naquelas armas que dissemos antes.

De prata, uma cruz de verde, acantonada de quatro Lises do mesmo.

Vamos embrasonar.

E vamos embrasonar de novo.

Mais uma:

Só mais uma, para finalizar.
Vetor utilizado como base aqui. CC-BY-SA

Um brasão é, ou ao menos tenciona ser, algo único por si, independente da forma como esteja reproduzido. O que permite que um único brasão gere inúmeras formas diferentes de embrasonar.