terça-feira, 26 de julho de 2016

Variações das armas nacionais do Brasil entre 1836 e 1868

Como eu já disse várias vezes neste blog, a heráldica, à parte de ser uma ciência, é uma arte, e assim, as representações de armoriais podem e devem se adequar aos estilos artísticos da época quando e do local onde são criados.

Assim sendo, salvo quando seja preciso unidade e repetição, como num livro de armas ou no cabeçalho de um documento por exemplo, não se pode qualificar como absoluto um desenho de brasão. As próprias representações heráldicas variadas são prova fidedigna disto.

Esta semana, quando folheava digitalmente o meu volume de “A história dos símbolos nacionais”, de Milton Luz, encontrei os seguintes parágrafos sobre as armas nacionais do Império do Brasil:

No entanto, a aparência formal deste símbolo não foi convenientemente preservada, talvez em razão da prevalência do alegórico sobre o heráldico. Assim, as mais variadas e fantasiosas versões deste brasão se multiplicavam nas fachadas dos edifícios públicos e nas publicações oficiais. 

Com tantos problemas urgentes e prioritários, nosso primeiro Imperador não podia cuidar dos detalhes de realização e aplicação dos símbolos que criara. Provavelmente Boulanger, seu rei d’armas, negligenciara sobre esta matéria.

Esta falha persistiu no Segundo Império e mesmo D. Pedro II, tão cioso do trato das artes e das ciências, também negligenciou sobre este detalhe, de crucial importância. Assim, o brasão de armas do império ficou sujeito aos caprichos e fantasias dos artistas. Gravadores franceses, ingleses e alemães, ao receberem a encomenda de um remoto Império perdido nos trópicos e, à falta de um rígido programa que lhes disciplinasse o trabalho, davam asas à sua imaginação. Vai daí as muitas versões usadas (entre 1836 e 1868) nos cabeçalhos do Correio Oficial, do Diário Oficial do Império e no Diário Oficial – versões tão diversas e, contudo, todas elas, “oficiais”.


O autor parece ignorar a variedade artística da época, querendo comparar os mecanismos que temos hoje com a meticulosa gravação manual dos séculos passados. Se os gravadores eram franceses, alemães e ingleses, muito bem. O fariam com base no brasão, assim como antes teriam feito outras centenas. A heráldica surgiu para identificar as pessoas (entre elas os monarcas, e por extensão, seus reinos). E levando em consideração o momento artístico e as tradições heráldicas locais, surgiram desenhos como os apresentados acima. Todos eles bastante agradáveis e bastante válidos. Eu gosto em especial dos desenhos na linha inferior. Um deles leva uma coroa imperial diferente, à moda da que vemos ainda hoje timbrando uma das Colunas de Hércules, que suportam as armas do Reino da Espanha.

O brasão do império, ao contrário do que Milton Luz defende, não ficou sujeito a caprichos de artista, e sim adaptado a estilos artísticos. Um programa rígido não é necessário, pelo contrário, quanto mais simples o brasão, melhor e mais identificável ele será. Quatro das versões seguem o que manda os decretos de 18 de setembro e 1 de dezembro de 1822.


Será, d’ora em diante, o escudo d’armas deste Reino do Brasil em campo verde uma esfera armilar de ouro atravessada por uma cruz da Ordem de Cristo, sendo circulada a mesma esfera de 19 estrelas de prata em uma orla azul; e firmada a coroa real diamantina sobre o escudo, cujos lados serão abraçados por dois ramos de plantas de café e tabaco como emblemas de sua riqueza comercial, representados na sua própria cor, e ligados na parte inferior pelo laço da nação. (Decreto de 18 de setembro de 1822)

Havendo sido proclamada com a maior espontaneidade dos povos a Independência política do Brasil, e a sua elevação à categoria de Império pela minha solene aclamação, sagração e coroação, como seu Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo: hei por bem ordenar que a Coroa Real, que se acha sobreposta no escudo das armas estabelecido pelo meu imperial decreto de 18 de setembro do corrente ano, seja substituída pela Coroa Imperial, que lhe compete, a fim de corresponder ao grau sublime e glorioso em que se acha constituído este rico e vasto Continente. (Decreto de 1 de dezembro de 1822)

Em todas as representações, a descrição do escudo está respeitada, e a única delas em que parece haver diferença para as demais é a do centro, onde eu não consigo ver o laço nacional, de verde e amarelo.

sábado, 9 de julho de 2016

Breve pausa (já em curso)

A redação deste blog (que também é o meu quarto) vai no quarto dia de reforma, caros leitores.

Estes dias, estou acordando cedo, junto com o sol.
De vermelho, um sol em esplendor de ouro

E sigo sem sinal de internet, graças às tomadas desligadas. Com dados móveis, publicar  é mais complicado.

Acabo ficando mais tempo no Whatsapp 🛡,
Escudo entre os emojis do Whatsapp: partido encaixado de vermelho e prata.

assistindo séries norte-americanas...
Suposto escudo com as armas dos Estados Unidos. De prata, seis palas de vermelho, chefe de azul, pleno.
...ou japonesas.
Susposto escudo heráldico do Japão, De vermelho, o selo imperial do crisântemo de ouro.

O plano é retornar na semana que vem. E quem sabe com algumas coisas bem bacanas.
Minhas armas com dois arminhos como suportes. Bonitinhos!


terça-feira, 5 de julho de 2016

Armas da "Divisão das Minas do Ouro” do Exército Brasileiro.

Estes dias estava lendo um pouco sobre Heráldica do Exército. O meu anterior post sobre a heráldica do exército brasileiro é um dos mais lidos deste blog. Infelizmente o resto da heráldica das nossas nobres forças armadas de terra não é tão bom quanto. Desvirtuada pelo constante uso de simbologia moderna e pela falta de uma divisão especificada que cuide da simbologia militar com respeito às normas heráldicas, acaba produzindo na maioria das vezes, peças de validez heráldica questionável.

Mas recentemente, me deparei com o brasão que aparece no estandarte da 4ª Região Militar/4ª Divisão de Exército. “Região Mariano Procópio e Divisão das Minas do Ouro”. E ele é surprendemente bom, mesmo que não cumpra completamente as regras heráldicas. O brasão como está reproduzido no texto original é o seguinte:

“[...] um escudo peninsular português, com bordadura de azul-ultramar, carregado de oito besantes de ouro, símbolo de riquezas. Campo de branco, carregado com uma esfera armilar de ouro, sustentando uma esfera de azul-celeste e uma Cruz de Cristo, de vermelho [...]”



A descrição é confusa,mas a representação é até bem decente. De acordo com a descrição os fimbriados não existem, mas mesmo com eles a composição não é de tudo desagravável,a meu ver.

Partindo do princípio que só existe um tom de cada cor, afinal qualquer sistema cromático moderno é superior aos que os heraldistas da época áurea tinham, este brasão poderia ficar simplificado em:

“De prata, uma esfera armilar cosida de ouro, rematada por um orbe de azul cintado de ouro e rematado por uma cruz pátea de vermelho. Bordadura de azul, carregada de oito besantes de ouro.

A minha representação, seguindo o brasonamento e livre de rebuscados, para fins completamente informativos, ficou da seguinte forma, reproduzindo a mesma esfera armilar do original.



E já que a ideia surgiu de uma bandeira, nada melhor que uma bandeira para finalizá-la.




segunda-feira, 4 de julho de 2016

A Sociedade Brasileira de Heráldica

Parece que apresentar as organizações heráldicas brasileiras tornou-se uma espécie de série deste blog. Depois do Colégio de Armas e Consulta Heráldica do Brasil e do posterior mas não sucessor, o Supremo Tribunal de Armas e Consulta Heráldica do Brasil. No post de hoje, a instituição é a Sociedade Brasileira de Heráldica, nome fantasia da Sociedade Brasileira de Heráldica e Humanística, Ecológica, Medalhística,Cultural, Beneficente e Educacional, que em minha humilde opinião, é a sociedade heráldica mais confusa que existe.

Para começar, a sociedade só possui UM artigo sobre heráldica. E surpreendentemente é um artigo decente, apesar de pequeno. Detalha uma adequação heráldica das armas da cidade de São Paulo aos termos da Heráldica de domínio Portuguesa, assimilada pelos municípios brasileiros. E para por aí. Ainda na mesma página, quando sugere-se que o leitor conheça mais de heráldica, o link direciona-o para a Wikipédia, que num parêntese pessoal, não parece ser a melhor forma de aprender heráldica para o iniciante.

Prosseguindo pela visita ao site, não encontrei nenhum outro estudo sobre heráldica ou quaisquer ciências similares. O único brasão para além do que é abordado no artigo é o da própria sociedade,que é esquartelado de verde e amarelo.


E aí acaba a presença heráldica visível desta instituição. Como eu sou um cara meio impulsivo quando o assunto é heráldica, dei a minha avaliação sobre esta instituição na página desta entidade no facebook. Não façam o mesmo, amiguinhos, eu acho até que peguei um pouco pesado, agora que releio.

A minha avaliação sobre a instituição rendeu uma mensagem do presidente desta organização, o senhor Galdino Cocchiaro. Foi a segunda pessoa que se aproximou de mim sobre o assunto da heráldica de domínio recentemente. Um senhor extremamente educado, pelos meus cálculos na casa de setenta anos, como a maioria dos heraldistas de mais idade. Fez a gentileza de me enviar o Estatuto da Organização.

E foi com incrível tristeza que eu li que estava entre os propósitos da organização “Pugnar pela paz mundial”, mas não havia nenhum “Promover e criar conteúdo para ensinar sobre heráldica às gerações futuras”.

A conversa ficou em aberto pelo adiantar da hora, mas da próxima terei muita coisa a dizer. Ao que parece será um diálogo mais proveitoso do que o último que eu tive sobre heráldica de domínio.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

As cruzes das ordens militares luso-brasileiras

Estava lendo sobre as cruzes das ordens militares espanholas e pensei que devia escrever algo sobre as brasileiras, mais precisamente as do império, que derivam das portuguesas.

Cruzes das Ordens Militares espanholas. Em sentido horário, do topo: Montesa, Alcântara, Santiago e Calatrava.
As espanholas são quatro, as quais figuram acima. As portuguesas são três, as quais foram depois nacionalizadas por Pedro I, e adicionadas de mais três: a do cruzeiro, a da rosa e a de Pedro I. Porém, como nenhuma das três possui uma insígnia em forma de cruz, ficamos com as três abaixo:

A Ordem de Cristo surgiu em 1319, por uma bula papal que autorizava a manutenção das propriedades, posses e membros dos Templários portugueses por Dom Dinis, Rei à época. A cruz seguiu sendo a mesma cruz latina potenciada de hastes páteas dos templários, mas agora carregada de uma outra, latina, de prata.
A Ordem de São Bento de Avis surgiu como Milícia dos Freires de Évora, sendo um ramo da ordem espanhola de Calatrava então instalado nesta cidade. Os milicianos foram reconhecidos em 13 de agosto de 1162 por Dom Afonso Henriques, primeiro soberano português, e em 1211 receberam as terras onde hoje fica a vila portuguesa de Avis, e lá se estabeleceram. Com o tempo, acabaram separando-se dos espanhois e tornaram-se uma ordem portuguesa, e depois brasileira. Sua insígnia é uma cruz latina florenciada de verde.

A Ordem de Santiago da Espada vem da ordem espanhola de mesmo nome, e sua fundação está envolta em muitas hipóteses. A versão lendária conta que o próprio São Tiago apareceu e lutou junto ao Rei Ramiro I das Astúrias, na Batalha de Clavijo, no ano de 844, vestindo um manto branco com uma cruz vermelha.

As ordens espanhola e portuguesa possuem como insígnia o que se chama de cruz latina espatária, em forma de espada, com a base maior em forma de lâmina, os braços florenciados e a parte superior em forma de empunhadura, lembrando também o ícone do naipe de espadas no jogo de baralho. Já no Brasil, parece haver um pequeno erro ou mudança. O site da Pró-Monarquia exibe uma cruz espatária com os três braços superiores como sendo florenciados.