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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Carta de Brasão da Baronesa de Sertório


Segunda-feira, reinicia a semana e reinicia também a inglória busca pelo meu sonho de uma publicação todo dia, como o meu blog favorito, o finado Blog de Heráldica do mestre Carrión Rangel.
Armas de José Juan Carrión Rangel

Enquanto não chego nesse nível, sigo postando sempre que e o máximo que posso. Hoje, tenho um arquivo completamente novo, que encontrei na página da Biblioteca Imperial. Uma série de páginas digitalizadas que não foi disponibilizada como edição digital, e eu transformei em PDF. É possivelmente uma das últimas Cartas de Brasão do Império, e estava no Acervo Imperial, e não com o seu armigerado, então eu não tenho muita certeza se ela chegou a ser aprovada. A Carta de Brasão da Baronesa de Sertório, que data de 5 de fevereiro de 1889.

Clique para acessar e baixar a Carta de Brasão

O Barão do Sertório, João Sertório, recebeu o título de Barão com Grandeza em 11 de Julho de 1888, mas acabou morrendo nos meses seguintes. Não tenho uma data precisa, e nem os Barões Vasconcelos no seu Archivo Nobiliarchico Brasileiro parecem ter esta informação. O que se sabe é que sua viúva, Ida de Azeredo Coutinho Tiberghien Sertório, enviou uma Carta de Brasão para ser aprovada pelo Imperador. O brasão quase fica em segundo plano, diante deste achado. Sua descrição, na carta de armas, é a seguinte:

Escudo em campo de ouro uma barra de azul acompanhada de sete estrellas de prata entre dous emblemas de sua côr natural sendo um da Justiça, representada por uma moça de olhos atados, sustentando uma balança na mão esquerda e uma espada na mão direita com a ponta descançando sobre o chão; outro emblema representado por dous livros de verde sobreposto um no outro sustentando um tinteiro acompanhado de duas pennas, significando este emblema - o homem de letra - Corôa e Paquife das cores e metaes do escudo.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Bibliografia on-line para o heraldista brasileiro


Eu tenho uma biblioteca recheada, que venho juntando desde que comecei o blog. Tudo quanto é livro heráldico que eu encontro pela internet e está diponível, eu arranjo, de álbuns armoriais da Alemanha Nazi até uma edição "pirata" do Armorial Lusitano. Isso é claro, quando se fala em eBooks.

Já a minha coleção de livros físicos é bem mais humilde, composta de livros usados, vindos de sebos, comprados a preços bem baixos mesmo, o que se nota pelo estado deles. Mas considero todos eles muito bons. Em especial, sou apaixonado pelo "Heráldica" de Alejandro de Armengol y de Pereira, que é de 1933 e ainda está em bom estado. O outro "Heráldica", do Luís Marques Poliano, está bem mais desgastado, mas ainda assim é meu maior companheiro para as dúvidas.

Eu sou o Rony Weasley dos livros de heráldica.

Enfim, gabolices à parte, o assunto de hoje é esse mesmo. Fiz um compilado com os melhores livros e artigos para os iniciantes na matéria, disponíveis gratuitamente na internet. Decidi focar em material de língua portuguesa, mas há links em espanhol também, os quais com um pouquinho de paciência dá pra se ler de forma tranquila.

  1. Armaria Portuguesa, de Brancaamp Freire. Chega de procurar brasões em sites de lojinhas suspeitas. Praticamente todos os brasões de linhagens portuguesas estão aí. Uma edição antiga, datada de 1908 (e portanto, em domínio público por todo o planeta), está disponível para download.
  2. Tratado de Armaria, de Joaquim Augusto Correia Leite Ribeiro. Na minha opinião é definitivamente a melhor das cartilhas sobre heráldica que existe. Vale fazer o download e ler inteiro.
  3. Tratado de Heráldica y Blasón, de Francisco Piferrer. Para mim, está entre os melhores livros já produzidos sobre a matéria, resumido mas completo. E ainda é um excelente repositório de figuras, com bastantes imagens, em especial de ordens. Em espanhol.
  4. Archivo Nobiliarchico Brasileiro, dos Barões Vasconcelos e Smith de Vasconcelos. Sem dúvida, a mais famosa obra sobre a nobiliarquia brasileira, traz uma boa quantidade de brasões dos nobres do império. É uma excelente fonte de pesquisa para interessados em nobiliarquia e genealogia.
  5. Archivo Heráldico-Genealógico, do Visconde de Sanches de Baena. Obra essencial para genealogistas e heraldistas pesquisando sobre o segundo reinado.
  6. Introdução à Heráldica Portuguesa, do Marquês de Abrantes. Essa é uma obra bem recente, com apenas 24 anos de publicação, e bem difundida. Não sei se está em domínio público, mas está na primeira página do Google, então bastante gente a possui.
  7. Taller de Heráldica, de Jose Antonio Vivar del Riego, é a fonte de informação mais concisa sobre desenhar escudos, na minha opinião. É em espanhol.
Espero que aproveitem.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Como eu vejo a heráldica brasileira


Esses dias, o Leonardo Piccioni, do Registro Heráldico Brasileiro, me pediu para falar um pouco sobre como eu via a heráldica brasileira, para um trabalho de faculdade. Não sei que faculdade é essa onde você pode fazer trabalhos sobre heráldica, mas já quero fazê-la. Escrevi algumas coisas que estavam na minha mente. O texto é bem informal, então perdoem lá algum vício gramatical.

“Eu acho que a heráldica de domínio do Brasil está num caminho sem volta para o buraco. Os princípios básicos de heráldica são desconhecidos até por muitos admiradores da matéria. Entre as bobagens que eu já li na internet, uma das que mais chama atenção é que o listel é a certidão de nascimento da localidade. Isso meio que expõe toda a fragilidade do sistema de símbolos que se criou aqui desde que as cidades passaram a adotar brasões para lhes representar. Criou-se toda uma nova definição de heráldica no século XX, que permite que qualquer coisa, como por exemplo, um balão, seja considerado um brasão de armas. 

E essa nova definição de heráldica acabou se espalhando para tudo quanto é lado. Heráldica de Domínio, Corporativa, Eclesiástica. Está tudo contaminado, por assim dizer. A vexilologia seguiu esse caminho, ou melhor, foi puxada para ele. Os emblemas que as pessoas consideram heráldica acabam estragando o potencial visual de bandeiras que por vezes seriam excelentes sem os tais símbolos. 

Porém, não se pode dizer que é culpa só da falta de conhecimento. A heráldica no Brasil nunca foi forte como em Portugal ou Espanha. As armas imperiais brasileiras podem ser consideradas a inquirir, com sua orla azul sobre campo verde. Mesmo na época do Império havia seus problemas. Até em Portugal havia confusões relacionadas a armoriais. 
A heráldica brasileira tem, apesar disso, um extremo potencial quando se trata de armas assumidas. Eu sou extremamente esperançoso nisso, e fico muito feliz quando um jovem, entre os 15 e os 30 anos, pede entrada no grupo de Heráldica que eu criei. Diferente dos mais velhos, que acabam seguindo à risca a mentira dos Brasões de Sobrenome, prática incitada por uma maioria de heraldistas inescrupulosos para ganhar alguns trocados, os jovens são mais interessados em ir a fundo nas pesquisas, comprovar e fazer valer seus direitos. Gente como eu, como você (Leonardo), como o Danilo Martins. Esse pessoal novo que tem potencial e com acesso a bons conteúdos, pode ir bem mais adiante. 
Eu considero importante que se conheça e se mantenha todo o conhecimento que temos disponibilizado até agora. Eu conversei com o Renato Moreira Gomes, um senhor de mais de oitenta anos que tem em seu poder praticamente toda a heráldica do Brasil. Eu tenho medo de que acervos como o dele sejam perdidos para o futuro, de que todo esse conhecimento acabe abandonado numa biblioteca qualquer, trancado a sete chaves como está trancada a coleção de trabalhos do Gustavo Barroso. Eu quero ser parte desta manutenção e desta reabilitação. 
Eu sonho com o dia que verei um curso de pós-graduação em Heráldica no Brasil, assim como há na Espanha. Acho que o Brasil só vai ter uma heráldica ao menos digna de nota quando houver um consenso entre os estudiosos, quando as intrigas pessoais pararem de ser mais importantes que o conhecimento, e isso vale desde o Eduardo de Castro me permitindo acesso ao grupo dele até a Vera Lúcia Bottrel Tostes disponibilizando os arquivos do Gustavo Barroso para consulta pública.
Não sei se vai acontecer, mas espero que aconteça. Até lá teremos que viver com a tal da nova definição de heráldica.”

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Adoção de Novas Armas


É sempre bom ver amigos adotando armas. Na noite da última segunda, enquanto trabalhava no artigo sobre o blog do David Appleton, recebi uma mensagem do Henrique Lemos, amigo de longa data, perguntando se eu não podia dar uma ajuda pra ele com as suas armas pessoais, que ele decidiu adotar recentemente.

De verde, três espadas em faixa, acompanhadas de uma orla, tudo de prata. Como timbre, um tridente de ouro. Como Lema, Nichts zu Fürchten.


Começamos então a busca por um brasonamento legal. Primeiro tentamos o estilo Bucket Shop, já que foi o único lugar onde eu achei um grifo marinho. Mas felizmente ele desistiu do grifo marinho.

Depois de alguma conversa, encontramos a solução, que estava nos meus próprios arquivos.

No começo eu não gostava muito destas armas, mas o novo timbre e o lema deram uma cara ótima ao brasão. Parabéns pelas armas novas, Henrique. Que elas possam sempre te acompanhar e testemunhar grandes feitos!

terça-feira, 26 de julho de 2016

Variações das armas nacionais do Brasil entre 1836 e 1868

Como eu já disse várias vezes neste blog, a heráldica, à parte de ser uma ciência, é uma arte, e assim, as representações de armoriais podem e devem se adequar aos estilos artísticos da época quando e do local onde são criados.

Assim sendo, salvo quando seja preciso unidade e repetição, como num livro de armas ou no cabeçalho de um documento por exemplo, não se pode qualificar como absoluto um desenho de brasão. As próprias representações heráldicas variadas são prova fidedigna disto.

Esta semana, quando folheava digitalmente o meu volume de “A história dos símbolos nacionais”, de Milton Luz, encontrei os seguintes parágrafos sobre as armas nacionais do Império do Brasil:

No entanto, a aparência formal deste símbolo não foi convenientemente preservada, talvez em razão da prevalência do alegórico sobre o heráldico. Assim, as mais variadas e fantasiosas versões deste brasão se multiplicavam nas fachadas dos edifícios públicos e nas publicações oficiais. 

Com tantos problemas urgentes e prioritários, nosso primeiro Imperador não podia cuidar dos detalhes de realização e aplicação dos símbolos que criara. Provavelmente Boulanger, seu rei d’armas, negligenciara sobre esta matéria.

Esta falha persistiu no Segundo Império e mesmo D. Pedro II, tão cioso do trato das artes e das ciências, também negligenciou sobre este detalhe, de crucial importância. Assim, o brasão de armas do império ficou sujeito aos caprichos e fantasias dos artistas. Gravadores franceses, ingleses e alemães, ao receberem a encomenda de um remoto Império perdido nos trópicos e, à falta de um rígido programa que lhes disciplinasse o trabalho, davam asas à sua imaginação. Vai daí as muitas versões usadas (entre 1836 e 1868) nos cabeçalhos do Correio Oficial, do Diário Oficial do Império e no Diário Oficial – versões tão diversas e, contudo, todas elas, “oficiais”.


O autor parece ignorar a variedade artística da época, querendo comparar os mecanismos que temos hoje com a meticulosa gravação manual dos séculos passados. Se os gravadores eram franceses, alemães e ingleses, muito bem. O fariam com base no brasão, assim como antes teriam feito outras centenas. A heráldica surgiu para identificar as pessoas (entre elas os monarcas, e por extensão, seus reinos). E levando em consideração o momento artístico e as tradições heráldicas locais, surgiram desenhos como os apresentados acima. Todos eles bastante agradáveis e bastante válidos. Eu gosto em especial dos desenhos na linha inferior. Um deles leva uma coroa imperial diferente, à moda da que vemos ainda hoje timbrando uma das Colunas de Hércules, que suportam as armas do Reino da Espanha.

O brasão do império, ao contrário do que Milton Luz defende, não ficou sujeito a caprichos de artista, e sim adaptado a estilos artísticos. Um programa rígido não é necessário, pelo contrário, quanto mais simples o brasão, melhor e mais identificável ele será. Quatro das versões seguem o que manda os decretos de 18 de setembro e 1 de dezembro de 1822.


Será, d’ora em diante, o escudo d’armas deste Reino do Brasil em campo verde uma esfera armilar de ouro atravessada por uma cruz da Ordem de Cristo, sendo circulada a mesma esfera de 19 estrelas de prata em uma orla azul; e firmada a coroa real diamantina sobre o escudo, cujos lados serão abraçados por dois ramos de plantas de café e tabaco como emblemas de sua riqueza comercial, representados na sua própria cor, e ligados na parte inferior pelo laço da nação. (Decreto de 18 de setembro de 1822)

Havendo sido proclamada com a maior espontaneidade dos povos a Independência política do Brasil, e a sua elevação à categoria de Império pela minha solene aclamação, sagração e coroação, como seu Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo: hei por bem ordenar que a Coroa Real, que se acha sobreposta no escudo das armas estabelecido pelo meu imperial decreto de 18 de setembro do corrente ano, seja substituída pela Coroa Imperial, que lhe compete, a fim de corresponder ao grau sublime e glorioso em que se acha constituído este rico e vasto Continente. (Decreto de 1 de dezembro de 1822)

Em todas as representações, a descrição do escudo está respeitada, e a única delas em que parece haver diferença para as demais é a do centro, onde eu não consigo ver o laço nacional, de verde e amarelo.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Armas da "Divisão das Minas do Ouro” do Exército Brasileiro.

Estes dias estava lendo um pouco sobre Heráldica do Exército. O meu anterior post sobre a heráldica do exército brasileiro é um dos mais lidos deste blog. Infelizmente o resto da heráldica das nossas nobres forças armadas de terra não é tão bom quanto. Desvirtuada pelo constante uso de simbologia moderna e pela falta de uma divisão especificada que cuide da simbologia militar com respeito às normas heráldicas, acaba produzindo na maioria das vezes, peças de validez heráldica questionável.

Mas recentemente, me deparei com o brasão que aparece no estandarte da 4ª Região Militar/4ª Divisão de Exército. “Região Mariano Procópio e Divisão das Minas do Ouro”. E ele é surprendemente bom, mesmo que não cumpra completamente as regras heráldicas. O brasão como está reproduzido no texto original é o seguinte:

“[...] um escudo peninsular português, com bordadura de azul-ultramar, carregado de oito besantes de ouro, símbolo de riquezas. Campo de branco, carregado com uma esfera armilar de ouro, sustentando uma esfera de azul-celeste e uma Cruz de Cristo, de vermelho [...]”



A descrição é confusa,mas a representação é até bem decente. De acordo com a descrição os fimbriados não existem, mas mesmo com eles a composição não é de tudo desagravável,a meu ver.

Partindo do princípio que só existe um tom de cada cor, afinal qualquer sistema cromático moderno é superior aos que os heraldistas da época áurea tinham, este brasão poderia ficar simplificado em:

“De prata, uma esfera armilar cosida de ouro, rematada por um orbe de azul cintado de ouro e rematado por uma cruz pátea de vermelho. Bordadura de azul, carregada de oito besantes de ouro.

A minha representação, seguindo o brasonamento e livre de rebuscados, para fins completamente informativos, ficou da seguinte forma, reproduzindo a mesma esfera armilar do original.



E já que a ideia surgiu de uma bandeira, nada melhor que uma bandeira para finalizá-la.




segunda-feira, 4 de julho de 2016

A Sociedade Brasileira de Heráldica

Essa publicação foi atualizada no Heráldica Brasil! Saiba como as coisas andam dois anos depois visitando: http://heraldicabrasil.org/2018/09/03/sociedade-brasileira-de-heraldica/

Parece que apresentar as organizações heráldicas brasileiras tornou-se uma espécie de série deste blog. Depois do Colégio de Armas e Consulta Heráldica do Brasil e do posterior mas não sucessor, o Supremo Tribunal de Armas e Consulta Heráldica do Brasil. No post de hoje, a instituição é a Sociedade Brasileira de Heráldica, nome fantasia da Sociedade Brasileira de Heráldica e Humanística, Ecológica, Medalhística,Cultural, Beneficente e Educacional, que em minha humilde opinião, é a sociedade heráldica mais confusa que existe.

Para começar, a sociedade só possui UM artigo sobre heráldica. E surpreendentemente é um artigo decente, apesar de pequeno. Detalha uma adequação heráldica das armas da cidade de São Paulo aos termos da Heráldica de domínio Portuguesa, assimilada pelos municípios brasileiros. E para por aí. Ainda na mesma página, quando sugere-se que o leitor conheça mais de heráldica, o link direciona-o para a Wikipédia, que num parêntese pessoal, não parece ser a melhor forma de aprender heráldica para o iniciante.

Prosseguindo pela visita ao site, não encontrei nenhum outro estudo sobre heráldica ou quaisquer ciências similares. O único brasão para além do que é abordado no artigo é o da própria sociedade,que é esquartelado de verde e amarelo.


E aí acaba a presença heráldica visível desta instituição. Como eu sou um cara meio impulsivo quando o assunto é heráldica, dei a minha avaliação sobre esta instituição na página desta entidade no facebook. Não façam o mesmo, amiguinhos, eu acho até que peguei um pouco pesado, agora que releio.

A minha avaliação sobre a instituição rendeu uma mensagem do presidente desta organização, o senhor Galdino Cocchiaro. Foi a segunda pessoa que se aproximou de mim sobre o assunto da heráldica de domínio recentemente. Um senhor extremamente educado, pelos meus cálculos na casa de setenta anos, como a maioria dos heraldistas de mais idade. Fez a gentileza de me enviar o Estatuto da Organização.

E foi com incrível tristeza que eu li que estava entre os propósitos da organização “Pugnar pela paz mundial”, mas não havia nenhum “Promover e criar conteúdo para ensinar sobre heráldica às gerações futuras”.

A conversa ficou em aberto pelo adiantar da hora, mas da próxima terei muita coisa a dizer. Ao que parece será um diálogo mais proveitoso do que o último que eu tive sobre heráldica de domínio.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

As cruzes das ordens militares luso-brasileiras

Estava lendo sobre as cruzes das ordens militares espanholas e pensei que devia escrever algo sobre as brasileiras, mais precisamente as do império, que derivam das portuguesas.

Cruzes das Ordens Militares espanholas. Em sentido horário, do topo: Montesa, Alcântara, Santiago e Calatrava.
As espanholas são quatro, as quais figuram acima. As portuguesas são três, as quais foram depois nacionalizadas por Pedro I, e adicionadas de mais três: a do cruzeiro, a da rosa e a de Pedro I. Porém, como nenhuma das três possui uma insígnia em forma de cruz, ficamos com as três abaixo:

A Ordem de Cristo surgiu em 1319, por uma bula papal que autorizava a manutenção das propriedades, posses e membros dos Templários portugueses por Dom Dinis, Rei à época. A cruz seguiu sendo a mesma cruz latina potenciada de hastes páteas dos templários, mas agora carregada de uma outra, latina, de prata.
A Ordem de São Bento de Avis surgiu como Milícia dos Freires de Évora, sendo um ramo da ordem espanhola de Calatrava então instalado nesta cidade. Os milicianos foram reconhecidos em 13 de agosto de 1162 por Dom Afonso Henriques, primeiro soberano português, e em 1211 receberam as terras onde hoje fica a vila portuguesa de Avis, e lá se estabeleceram. Com o tempo, acabaram separando-se dos espanhois e tornaram-se uma ordem portuguesa, e depois brasileira. Sua insígnia é uma cruz latina florenciada de verde.

A Ordem de Santiago da Espada vem da ordem espanhola de mesmo nome, e sua fundação está envolta em muitas hipóteses. A versão lendária conta que o próprio São Tiago apareceu e lutou junto ao Rei Ramiro I das Astúrias, na Batalha de Clavijo, no ano de 844, vestindo um manto branco com uma cruz vermelha.

As ordens espanhola e portuguesa possuem como insígnia o que se chama de cruz latina espatária, em forma de espada, com a base maior em forma de lâmina, os braços florenciados e a parte superior em forma de empunhadura, lembrando também o ícone do naipe de espadas no jogo de baralho. Já no Brasil, parece haver um pequeno erro ou mudança. O site da Pró-Monarquia exibe uma cruz espatária com os três braços superiores como sendo florenciados.




terça-feira, 28 de junho de 2016

O Supremo Tribunal de Armas e Consulta Heráldica do Brasil

Há algum tempo eu falei do Colégio de Armas e Consulta Heráldica do Brasil, uma iniciativa do já falecido heraldista Gustavo Barroso, que infelizmente se extinguiu após sua morte.


Nessa mesma linha, hoje vou falar do STACHB, o Supremo Tribunal de Armas e Consulta Heráldica do Brasil, instituição posterior, porém, infelizmente, não sucessora da primeira, até onde me foi informado.

Atualmente, que eu tenha conhecimento, o STACHB possui dois membros. Um deles, seu presidente, é o famoso heraldista brasileiro, Alberto Fioravanti, Quem nunca ouviu falar nele é porque realmente não conhece o suficiente de heráldica. Um senhor bastante solícito, que nunca deixou de responder uma dúvida que eu lhe envie. Sobre o STACHB, já me respondeu muitas.

O outro membro é o Raul Marquardt. Espero ter acertado o nome. Ele é o dono do Atelier Heráldico, e ocupa o posto de Rei de Armas dessa organização. Nunca tive contato com ele, mas ele apresenta as armas do STACHB em seu site, e parece emitir certificações em nome dele.

Recentemente, tentei contato com eles, para me tornar afiliado ou colaborador, como fiz também com o Instituto Genealógico e Heráldico da Paraíba, enviando mensagem na página de facebook. Se alguém tiver recebido-a, gostaria de pedir a gentileza que me respondesse. Sigo esperando.

Por fim, estive trabalhando numa versão da insígnia deste instituto para aparecer nesta publicação, já que as versões que achei são todas muito pequenas. Um reflexo do estado pré-digital em que ainda vive muito da nossa heráldica.



Para além dela, vai também um desenho delas em forma de escudo, sem a legenda, que eu achei que ficaria bem interessante.

Ficou parecendo Bourbon de Espanha.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Breve armorial dos vice-reis do Brasil

Após dois anos de faculdade de Design, pensei muito e decidi mudar. Vou para História, um ambiente que pra mim, apaixonado por adquirir mais e mais conhecimento, parece ser uma ótima escolha, depois de dois anos às voltas com desenhos que não saem dos meus dedos e análises sob termos que me doem a cabeça.
Tem ainda o diferencial de ser perto de casa. Em tempos de crise, viver sozinho numa cidade grande acaba fazendo muito mal aos bolsos. Outro diferencial é que a heráldica, sendo uma área de conhecimento paralela à história, pode se tornar mais para frente, não apenas um hobby, mas quem sabe até uma profissão. Um curso de pós-graduação em heráldica seria um sonho. Grandes iniciativas nas quais eu me engajaria e faria de tudo para acontecer.

Mas antes das grandes iniciativas, vamos às pequenas. No último fim de semana, produzi um breve (talvez possa ser dito "brevíssimo") compêndio de desenhos das armas dos 15 vice-reis do Brasil. Uma diagramação simples, a impressora de casa e uma encadernação barata foram suficientes para a minha cópia da obra.


Até me perguntaram se eu não ia publicar em papel. Mas não o farei por três motivos.

  1. Há material de domínio público, utilizado nos desenhos. Não acho correto lucrar com o trabalho dos outros.
  2. Heráldica é um gênero editorial "de nicho". E quase todas as fontes que eu usei para esse trabalho estão disponíveis na internet. Provavelmente eu não venderia nem vinte cópias.
  3. É um trabalho definitivamente pequeno. O João Paulo Oliveira, heraldista alagoano, compilou os símbolos nacionais do Brasil desde 1815 até atualmente, e tem o dobro das páginas deste. A minha ideia era fazer realmente algo breve, então não faz sentido publicar fisicamente algo tão pequeno. Deixa para quando tiver bem mais material, e eu produzo um grande armorial luso-brasileiro como monografia de conclusão de curso superior.
 O Breve armorial dos vice-reis do Brasil pode ser lido aqui e baixado, de graça, no Scribd.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

Considerações sobre o brasão de Peabiru

Recentemente, um município brasileiro apresentou novas armas. Em Peabiru, município no centro-oeste do estado do Paraná, dois historiadores locais promoveram uma recuperação heráldica nas armas locais. Um dos dois levou o desenho para avaliação em um dos grupos de heráldica que eu frequento no Facebook. A imagem abaixo vinha acompanhada da descrição:
O brasão de Peabiru (Paraná), com a seguinte descrição: Escudo português de azul, cortado de faixa. Em chefe três peças brocantes: na destra, a representação indígena; no centro do chefe, de prata, a Cruz da Companhia de Jesus, na sinistra, o busto de um capitão bandeirante do século XVII, em carnação, voltado para o centro. No campo uma faixa de sinopla, bordada em ouro. Ornatos externos: como timbre, a coroa mural de prata, de cinco torres, cada uma com sua porta. Como suporte, à destra, um ramo de trigo e à sinistra, um ramo de café, ambos frutados em suas cores. Na ponta, a representação de uma Araucária angustofolia. Sob a ponta e sobre os suportes um listel inferior duplo de ouro, o topônimo “Peabiru”, tendo à destra inferiormente as datas “1951 e 1952” e à sinistra “14 de dezembro de 1952”, com letras e algarismos em sinople.

Eu pessoalmente sou um purista, que não acredita em "de sua cor" ou "ao natural". Eu acredito em sete esmaltes. Cinco cores e dois metais. Outro ponto,é que usualmente peças heráldicas são representadas sempre em direção à dextra (direita da imagem). Por fim, e resumindo o meu comentário, a descrição me parece confusa. Para facilitar, primeiro brasona-se o campo para só então partir aos ornamentos externos.

A seguir, replico um dos meus comentários feitos na discussão com um dos responsáveis pelo projeto. Confesso que sofri um pouco para tentar brasonar este escudo, e ainda não fiquei satisfeito.

"A descrição apresentada peca pelo preciosismo desnecessário. Na tentativa de tornar o texto mais "nobre" e detalhado, acabou-se recorrendo a floreios desnecessários na linguagem. A descrição pode e deve ser simplificada ao máximo, para que o brasão seja facilmente desenhado. Pode-se reduzir esta para o seguinte:
 

De azul, uma faixa de ouro e sobre esta uma faixa de verde. No chefe, uma cabeça de índio, o monograma da companhia de Jesus e uma cabeça de bandeirante, tudo de prata, posto em faixa. Na ponta, uma Araucária de prata. Como timbre, uma coroa mural de cinco torres, de prata. Como suportes, um ramo de trigo à dextra e um de café à sinistra. Sob o escudo, listel de prata com as legendas: "1951-1952", "Peabiru" e " 14 de Dezembro de 1952".

Termos como "argenta" não existem na nossa língua, para além da imaginação de um ou outro heraldista metido a Debret. A Heráldica Portuguesa sempre usou linguagem chã para brasões.

A Heráldica não nasceu para ser uma ciência hermética ou esnobe, ao contrário do que muitos pensam e querem fazer pensar. A heráldica surgiu para que as pessoas pudessem se diferenciar, se destacar, se informar, se reconhecer e se guiar nas batalhas do período medieval, de forma simples e clara. Sim, é necessário reconhecer que ela, como passar do tempo, tornou-se uma arte. Porém os estilos artísticos não podem se sobrepor à função vital e motivo de existência de qualquer brasão, que é ser uma representação clara de seu dono, seja ele uma pessoa, uma cidade ou qualquer outra coisa que possa ser representada.
"

sábado, 23 de abril de 2016

O Colégio de Armas e Consulta Heráldica do Brasil, 2.

O Assunto Colégio de Armas e Consulta Heráldica do Brasil não estaria completo se eu não trouxesse de alguma forma a fonte das armas. Prometi no primeiro post deste tema, e trago, da melhor forma que me foi possível, a matéria sobre o Colégio, que aparece na Revista Mundo Ilustrado, Edição de Janeiro de 1955. Cliquem na imagem para ver em máxima resolução.