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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Copyright em Heráldica Digital


Há muitas discussões a respeito da heráldica feita através de programas gráficos. Alguns mais puristas consideram um horror. Eu pessoalmente considero algo normal. Eu acredito que as pessoas precisam diferenciar o conteúdo em vez da forma, quando se trata disso. Porque um brasão não liga a formas artísticas. Um brasão é sempre o mesmo, independente de ter sido feito por um monge copista numa abadia francesa ou por um adolescente desenhando no caderno da escola.

O que deve ser combatida é a disseminação indevida da heráldica de clip-art. Eu, como designer e heraldista, pessoalmente não acho clip-arts tão ruins. Para mim, tudo tem a ver com dois pontos principais: Qualidade de composição e respeito pelo direito autoral. Dá para resumir em duas perguntas.

1. A sua composição está graficamente boa e cumpre as regras do desenho heráldico?
2. A sua composição credita os autores de todas as figuras que tenha usado?

Se a resposta para as suas duas perguntas foi SIM, então muito bem. Ainda que usando Clip-arts, sua composição está boa e não é uma violação de nenhum direito autoral.

Não quer dizer que você precise adicionar uma nota de copyright dentro da imagem. A maior parte dos autores nem pede isso. Basta uma nota na legenda, como na imagem abaixo.

Brasão para um jogo online.
Imagem compartilhada sob Licença Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0 Intl.
© John Rafael, com arquivos de ©Katepanomegas, ©Heralder @Wikimedia Commons
Há muitas iniciativas para garantir o direito autoral. Não seja a pessoa na contra-mão.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Como eu vejo a heráldica brasileira


Esses dias, o Leonardo Piccioni, do Registro Heráldico Brasileiro, me pediu para falar um pouco sobre como eu via a heráldica brasileira, para um trabalho de faculdade. Não sei que faculdade é essa onde você pode fazer trabalhos sobre heráldica, mas já quero fazê-la. Escrevi algumas coisas que estavam na minha mente. O texto é bem informal, então perdoem lá algum vício gramatical.

Eu acho que a heráldica de domínio do Brasil está num caminho sem volta para o buraco. Os princípios básicos de heráldica são desconhecidos até por muitos admiradores da matéria. Entre as bobagens que eu já li na internet, uma das que mais chama atenção é que o listel é a certidão de nascimento da localidade. Isso meio que expõe toda a fragilidade do sistema de símbolos que se criou aqui desde que as cidades passaram a adotar brasões para lhes representar. Criou-se toda uma nova definição de heráldica no século XX, que permite que qualquer coisa, como por exemplo, um balão, seja considerado um brasão de armas. 

E essa nova definição de heráldica acabou se espalhando para tudo quanto é lado. Heráldica de Domínio, Corporativa, Eclesiástica. Está tudo contaminado, por assim dizer. A vexilologia seguiu esse caminho, ou melhor, foi puxada para ele. Os emblemas que as pessoas consideram heráldica acabam estragando o potencial visual de bandeiras que por vezes seriam excelentes sem os tais símbolos. 

Porém, não se pode dizer que é culpa só da falta de conhecimento. A heráldica no Brasil nunca foi forte como em Portugal ou Espanha. As armas imperiais brasileiras podem ser consideradas a inquirir, com sua orla azul sobre campo verde. Mesmo na época do Império havia seus problemas. Até em Portugal havia confusões relacionadas a armoriais. 
A heráldica brasileira tem, apesar disso, um extremo potencial quando se trata de armas assumidas. Eu sou extremamente esperançoso nisso, e fico muito feliz quando um jovem, entre os 15 e os 30 anos, pede entrada no grupo de Heráldica que eu criei. Diferente dos mais velhos, que acabam seguindo à risca a mentira dos Brasões de Sobrenome, prática incitada por uma maioria de heraldistas inescrupulosos para ganhar alguns trocados, os jovens são mais interessados em ir a fundo nas pesquisas, comprovar e fazer valer seus direitos. Gente como eu, como você (Leonardo), como o Danilo Martins. Esse pessoal novo que tem potencial e com acesso a bons conteúdos, pode ir bem mais adiante. 
Eu considero importante que se conheça e se mantenha todo o conhecimento que temos disponibilizado até agora. Eu conversei com o Renato Moreira Gomes, um senhor de mais de oitenta anos que tem em seu poder praticamente toda a heráldica do Brasil. Eu tenho medo de que acervos como o dele sejam perdidos para o futuro, de que todo esse conhecimento acabe abandonado numa biblioteca qualquer, trancado a sete chaves como está trancada a coleção de trabalhos do Gustavo Barroso. Eu quero ser parte desta manutenção e desta reabilitação. 
Eu sonho com o dia que verei um curso de pós-graduação em Heráldica no Brasil, assim como há na Espanha. Acho que o Brasil só vai ter uma heráldica ao menos digna de nota quando houver um consenso entre os estudiosos, quando as intrigas pessoais pararem de ser mais importantes que o conhecimento, e isso vale desde o Eduardo de Castro me permitindo acesso ao grupo dele até a Vera Lúcia Bottrel Tostes disponibilizando os arquivos do Gustavo Barroso para consulta pública.
Não sei se vai acontecer, mas espero que aconteça. Até lá teremos que viver com a tal da nova definição de heráldica.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Heráldica de Clip-arts


Seguindo com o assunto Heráldica Digital, que eu comecei na segunda-feira (Clique aqui para ir ao post anterior) falando sobre quem usa softwares para verdadeiramente desenhar heráldica. Mas a grande maioria das pessoas não foi treinada para desenhar, e sim para uma miríade de outras funções, físicas ou mentais. Para estes, resta, com mais ou menos esforço, usar material pré-fabricado, os chamados clip-arts.

Muita gente não gosta. Há quem considere uma ofensa. Há quem nem sequer fale no assunto. Mas eu decidi falar.
  1. Clip-art não é arte heráldica. Na faculdade de Design, a gente discutiu o conceito de arte. Entre as milhares de possíveis definições para arte, eu fiquei com a seguinte na minha cabeça: Arte é qualquer criação humana, original em seu conceito, para fins de fruição. A heráldica de Clip-arts até pode ser criada para fins de fruição, mas o fato de reaproveitar materiais acaba criando algo que não é original, tornando o processo algo artificial, repetitivo, mecânico.
  2. Clip-art é útil. Sim, pode não ser arte e muitas vezes não ser agradável aos olhos. Mas a Heráldica de clipart funciona para o fim a que se propõe. Suponhamos que você é um advogado que precisa enviar um brasão para que um artista heráldico o desenhe. Se você não for bom em brasonar, basta enviar um desenho, mesmo que feito com peças pré-fabricadas. O artista compreenderá perfeitamente o que você procura, e a informação terá sido dada com sucesso.
  3. Saber usar clip-art não faz de você um heraldista. Ser um heraldista envolve muito estudo, esforço, paciência e diria até mesmo um pouco de habilidade artística.

Dito isso, o básico da heráldica de clip-art pode ser feito usando um software simples, o Paint. Com os clip-arts certos e um pouco de paciência você pode chegar a um resultado como esse:

De prata, uma faixa de azul carregada de um navio de sua cor, entre três estrelas de seis pontas, de vermelho, duas em chefe e uma na ponta.
Há ainda a possibilidade de elaborar mais o trabalho usando material e softwares vetoriais e de edição de imagens, mas decidi não me delongar no assunto desenho desta vez, porque não é este o foco. Na página de links, na seção referências, há algumas páginas com Cliparts. Vocês podem usar à vontade, mas não se esqueça de atribuir créditos aos criadores.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Questão de estilo


Estou recomeçando devagar. Há muito o que ser feito no blog ainda. Hoje, algumas palavras sobre desenhos heráldicos, e não sobre a heráldica em si.
Atualmente, heráldica gerada e desenhada com softwares de computador tornou-se bastante popular. Há ainda quem não considere ela uma grande forma de arte, por valer de material pré-fabricado em boa parte dos casos. Desta vez não falarei deles, mas em breve terei algumas palavras sobre essas pessoas também.

Hoje vou falar de um outro grupo. Há, entre todos os criadores de arte heráldica digital, um grupo que é responsável por desenhar do zero todas as suas obras. Eu até gostaria de me considerar parte desse grupo, mas minhas criações acabam limitadas pelo fato de eu não saber desenhar figuras complexas, como animais ou objetos mais elaborados como chapéus com borlas, mantos ou torreões ardentes. Sou capaz de, com certa propriedade e em alguns minutos, desenhar umas armas básicas, suficientes para se representar um brasão. Por exemplo:

De prata, três faixas de vermelho, cantão de azul carregado de cinco lisonjas de ouro postas em cruz, a do centro carregada de um coração de púrpura.

Há entre esse grupo de heraldistas, três estilos predominantes.
O primeiro, o qual eu expus acima, apresenta a arte limpa, sem brilho, detalhes ou sombras. É heráldica na prática. Para mim, seu expoente máximo é o Xavier Garcia, do Taller de Heráldica e Vexilologia da Wikipedia em Espanhol, e do blog Dibujo Heráldico. É meu blog de heráldica preferido. Visito-o praticamente todos os dias.


O segundo estilo é bem conhecido, eu o chamo de Wikipediano, porque seu estilo de representação vem de alguns designers/heraldistas que produzem conteúdo para a Wikipédia. Os mais famosos são Sodacan (Sem nome conhecido), Heralder(Sem nome conhecido), Tom-L (Tom Lemmens) e SanglierT (Mathieu Chaine). Consiste primariamente em adicionar sombreado, volume e movimento às figuras através de contornos e alterações nos tons, deixando-os mais claros ou escuros. Fica a minha tentativa, meio sem sucesso, de imitar o estilo.

O terceiro estilo, que eu chamo de metalizado, é bem comum entre os brasões brasileiros, por ser usado em muito brasões do Atelier Heráldico do Raul Marquardt, e também pelo heraldista paraibano Eduardo Castro (Que é um purista, monarquista ferrenho, me bloqueou no facebook, mas ainda assim aqui está o link para o blog dele.) O efeito metalizado é conseguido através da sobreposição de uma textura metalizada por cima do escudo, que é ajustada para a melhor aparência. Essa textura é um mistério a parte. Eu procurei bastante para escrever este artigo e não achei de jeito nenhum. O estilo também usa um leve sombreado para dar a sensação de volume. Tentei imitar com outra textura de metal, mas não ficou bem igual.

Não podemos esquecer que a Heráldica é uma arte, e assim sendo, pode ser interpretada de infinitas maneiras, Então há muitos estilos de desenho que eu não falei. A arte heráldica digital está ganhando espaço, e embora não seja ainda uma febre entre os heraldistas mais tradicionais, agrada bastante aos mais jovens, pela praticidade. Você não pode colocar um mural de um metro de altura num cartão de cinco centímetros.

No fim, cabe a cada um de vocês escolher o estilo que agrada mais, e aproveitar a evolução da arte através da história.


quarta-feira, 29 de junho de 2016

Diálogos sobre heráldica

Nesta manhã conversei com um defensor da heráldica municipal brasileira, que julgou minhas ideias como arrogantes e disse que eu estava indo por um mau caminho. Defendi a minha opinião da forma que melhor pude, dizendo-lhe o que considero feio e de mau gosto na heráldica municipal brasileira. Foi suficiente para ser tachado de arrogante. Eu, um reles estudante na matéria, sem um curso superior sequer, dizendo que os brasões brasileiros são feios? Deve ter sido um ultraje! Selecionei minhas melhores frases:

A heráldica das localidades brasileiras é um punhado de pseudobrasões de muito mau gosto. Creio que nem sequer chegam a mil os que podem ser chamados de heráldica em sentido puro.
Que me desculpem os feios, mas beleza é fundamental. Arte é arte e gosto não se discute. Há Picasso, Dalí, Monet, e há também Romero Britto. Posso não entender nada de arte, nem mesmo saber desenhar uma linha sem uma régua, mas de heráldica eu acho que sei pelo menos um pouquinho. O suficiente para saber que ISTO:


...passa longe e bem longe de ser considerado boa heráldica. Pelo menos pela cartilha onde aprendi não é.
"Estou avaliando da perspectiva artística e tradicional, onde os escudos não possuem mais que sete cores, onde a heráldica paisagística é considerada de extremo mau-gosto, onde figuras de céu bonito são heresias, e onde ideias que fujam do padrão são incomuns e consideradas artisticamente feias."

 Olha, desculpa se ofendi, mas eu aprendi que heráldica se faz com sete cores, oito no máximo se contar a carnação. Que heráldica se faz sendo simples e claro, e não amontoando dezenas de símbolos sobre um campo florido com um céu azul e um sol brilhante com duas mãos representando união.

"A realidade da nossa história, a qual você tanto cita, criou um caminho que destoa da heráldica tradicional, a qual eu defendo veementemente."
Meu interlocutor parece considerar que a heráldica do Brasil está livre de seguir qualquer norma só por ser brasileira, e assim, considera normal essa devassidão simbológica que cria coisas como o "brasão" de Teotônio Vilela. Da forma que se apresenta não tem nenhum brasão aí.

"O listel no brasão de Paris diz "FLUTUAT NEC MERGITUR" (Flutuar, não submergir)O listel no brasão da Paraíba: "5 de agosto de 1585"Onde está a mensagem mais forte? Qual define mais o povo do local? Qual é um verdadeiro LEMA?"
Sem comentários, apenas meditem na pergunta.

Para concluir. Provavelmente eu sou arrogante sim. Sou purista e não sei nem como é que eu cheguei a um brasão que me satisfaz. Mas o que eu ataco e o que eu defendo são ideias, estilos artísticos, meios de criação. Não ofendo nem julgo ninguém. Não uso de ad hominem nem outras argumentações que denigram os meus interlocutores. Acredito que todos podem errar. Inclusive eu posso estar errado em cada uma destas afirmações. No entanto, foi essa a heráldica que eu aprendi, e é essa heráldica que eu defenderei.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Sobre bastardos

Esses dias eu vi em um grupo de Heráldica no Facebook uma discussão sobre abatimentos por bastardia.

Em algumas casas reais, como a francesa e a portuguesa, os bastardos recebiam uma diferenciação em suas armas que indicasse a condição de ilegítimo. Na Inglaterra, há o "Bar Sinister", uma ou cotica do cantão inferior da destra ao superior da sinistra (uma contra-banda), mas que não toca a borda do escudo.

Charles Lennox, Duque de Richmond, bastardo de Charles II do Reino Unido.


No caso específico de Portugal, era um filete de negro, em contra-banda.




Noutras casas, como a de Castela e Leão, os escudos eram geralmente modificações das armas reais, mas com organização diversa da original, e não havia um "abatimento" em si. Um bom exemplo é o brasão de Fadrique, filho de Afonso XI de Castela e Leão, e de sua amante preferida, Leonor Sanchéz de Guzmán. Ele usa as armas de Castela e Leão, mas num terciado em mantel, com Castela nas duas primeiras divisões e Leão na ponta.


Mas voltando à nossa discussão, ou melhor dizendo, à discussão que eu li. Escreve o primeiro interlocutor, comentando um escudo com diferenciação.

"Mas neste escudo não aparecem as armas próprias do reino, e sim uma diferenciação por bastardia, o que é uma mácula nas armas."


Em seguida, o outro o responde.

"Se eu tivesse algumas armas reais, eu obviamente as usaria, não importando se possuem ou não diferença de bastardia."
 Essa conversa me deixou interessado em saber da opinião dos outros sobre isso. Então para hoje temos uma enquete. Quero a opinião de vocês sobre a seguinte pergunta:

Se você fosse intitulado a uma versão de armas nacionais abatidas por "bastardia", as usaria?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Um livro mais ou menos sobre heráldica

De enrolações e descrições carregadas de pseudo-significados, a Heráldica brasileira segue tendo inveja das demais. Na mesma era histórica de Dom Felipe VI normatizou o escudo do Rei de Espanha, trazendo de volta o histórico púrpura para o Reino de León, na minha Paraíba natal, o livro de heráldica mais conhecido é cheio de erros e incorreções.

Sendo encontrado por 10 reais em sebos e livrarias online, Brasão d'armas do Judiciário da Paraíba não deixa de ser uma boa cartilha para iniciantes, de fato. No entanto, falta-lhe em muitos pontos a sensibilidade de um heraldista, deixando passar citações absurdas como:

"Sobre campo de blau esmaecente"
O autor tenta justificar uma escolha estilística no brasão. "No afã de bem decifrar tudo", como dito no resumo do livro, o autor descreve que o brasão possui um degradê. Algo que está totalmente fora de questão em temos de brasonamento. Na entrada sobre brasonar e embrasonar, eu expliquei que um brasão tenciona ser único, independente de como seja embrasonado. É desnecessário descrever que há um degradê num brasão, primeiro porque não é de bom gosto, e segundo porque nem sempre se pode brasonar um gradiente. Um brasão deve ser regular, simples e completo. O autor nos traz isso no texto, mas não é o que apresenta no brasão, infelizmente.

"Assumindo a forma de um scudo con incavati al capo"
Novamente, a escolha estilística está impressa no brasão, o que é desnecessário.

"Peça única, honrosa de primeira classe, em chefe, atravessando até o contrachefe e formada por três subpeças... (segue a descrição da espada, balança e tábuas da lei)"
Esta é a pior das sandices que li nesse livro. As peças que geralmente se consideram de primeira classe são a faixa, a pala, o sautor, a banda, e a cruz (às vezes acrescida uma ou retirada uma destas) Isto que aparece não são peças heráldicas, e sim um amálgama de figuras desenhadas de forma pseudo-heráldica.

Se é para criar uma versão destas armas, corrigida, eu iria com o seguinte brasão:


De azul, uma espada da qual pendem dois pratos de balança, tudo de ouro. Brocante duas tábuas da lei do mesmo, carregadas das divisas IVS e LEX, respectivamente. Nos cantões do chefe, duas flores-de-lis de prata. Suportes dois feixes de prata. Listel de vermelho com a divisa OPVS IUSTITIÆ PAX.
Evidentemente mais simples, mas ainda regular e completo.

domingo, 14 de junho de 2015

Você compraria uma loja de Heráldica?

Eu estava passeando pela internet hoje, quando notei que o Heráldica Pelotense foi fechado e seu espólio colocado à venda.

Quando eu era apenas um curioso iniciante em Heráldica (não que eu não seja mais curioso, mas bem no passado), o site deles era um dos meus preferidos. Vendo num contexto simplório, pode-se dizer que essa página foi, por longos 19 anos, uma bucket shop, como costumeiramente se diz nos círculos anglófonos de heráldica. Ainda assim, é inegável que por obra dos proprietários deste site, a heráldica foi ao menos um pouco mais popularizada


Página da Heráldica Pelotense. Se eu fosse milionário, eu compraria.

Se este espólio colocado à venda fosse apenas de livros, eu até pensaria em fazer algumas ofertas, visto que agora comecei a comprar volumes físicos de heráldica.

Encontrei uma cópia desse livro num sebo por aqui.

Se alguém estiver interessado, pode mandar um e-mail para eles. E caso haja material que possa ser disponibilizado na internet, acho que não só eu, mas toda a comunidade heráldica apreciará bastante.

E você, leitor, se tivesse dinheiro para isso, compraria a loja?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Pelo bem do método.

Posso estar enganado, e bem, espero que esteja. Mas acredito que há gente muito pouco gentil no ramo heráldico. Reitero que não sou um megalômano. Heráldica não é minha vida, não ganho um centavo pela tarefa de escrever este tedioso blog. Não ganho porque não quero, não sou a favor de encher um blog de publicidade, de tal forma que todo ele acabe se tornando uma grande vitrine.

Por isso, também não cobro um centavo sequer quando forneço ajuda com heráldica aos que me pedem, não vendo meus desenhos heráldicos nem os faço por encomenda em troca de qualquer pagamento em dinheiro.

Eu não sou um desses caras. Não acredito que Heráldica tenha de ser caro e chique.
Na minha página do DeviantArt, posto sempre minhas mais recentes Peças Heráldicas digitais, e lá, aceito comissões por pontos. Para os leigos, pontos são uma espécie de moeda no DeviantArt, que permite melhorar o perfil, adicionar subpastas no seu catálogo de posts, dentre outras melhoras. Lá eu peço points, porque com eles teria uma melhor usabilidade no serviço. Mas sigo sem aceitar nenhum dinheiro. Não acredito que Heráldica tenha de ser algo caro e chique. Não acredito que tenha de ser esnobista. Não acredito que tenha de ser floreada. Não é pra isso que ela serve.
A cena errada, o momento errado, a ocasião perfeita
A Heráldica é uma forma de identificação. Heraldistas são os guardiões deste método, da ciência criada para compreender a identificação. Está em suas mãos o poder de compreender e transmitir tal método. Ao encontrarem incorreções, é importante que as tragam à tona. Meu pai diz que "quem encobre o malfeito, faz pior do que quem o malfeito fez." Radical? Sim. Ácido? Totalmente. O método é claro, está escrito, preto no branco. A forma com que alguns heraldistas agem, condescendentes e comodistas, ultrapassando o método por vaidade, utilizando-se de  convicções pessoais, conjecturas e ideias de outras ciências humanas para isso é nada menos que estúpida.

Não nego que também faça isso. Porque provavelmente eu também o faço.

O método é o correto. Suas adaptações devem ser tratadas com cuidado e seus desvios devem ser extirpados. A última frase me lembrou de Huxley e Orwell. O certo é o certo e o errado é o errado.

Mas somos humanos e ninguém está sempre certo. Eu também estou errado, os outros também estão errados. Por desatenção, por desleixo ou mesmo por má-fé. Ninguém pode estar certo todo o tempo. Como alguém que li uma vez, que dizia que se outro estava descontente com o cenário da Heráldica que existia, fosse lá e criasse uma instituição para normatizá-la. Mas pra que isso? A Heráldica só necessitará de uma normatização quando tivermos um governo que a trate como deve ser tratada. Normatização não é necessária atualmente. Respeitar o método sim.

Faz-se mais levando conhecimento de forma criteriosa do que apontando falhas. Precisa-se ensinar o método, e não utilizá-lo se dele (ou de qualquer outra coisa) para julgar-se mais correto sobre qualquer coisa.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A Nova "Nobreza" da internet.

Antes de ser um blogueiro sobre heráldica, gosto muito de ser um leitor. Sou leitor assíduo do Dibujo Heráldico, do Xavier Garcia e Mesa, bem como (e até ainda mais) do Crónicas Heráldicas, do Juan José Carrion Rangel.

Estava novamente lendo estes dias, durante as minhas férias, e encontrei um excelente diálogo, evidentemente fictício, tratando da "ostentação" que alguns fazem sobre seus brasões, títulos e suposta "nobreza". Passo a citá-lo, em tradução livre:

E um diálogo entre um verdadeiro militar (com tão somente uma ou duas medalhas após trinta anos de serviço e um par de missões na Ásia) e um cavaleiro de alguma destas "ordens", com o peito coberto de metal tilintante, poderia ser similar a isto.

-E todas estas medalhas, de que são?
-Já te digo. 
-Essa grande cruz vermelha, por exemplo. O que fez para ganhá-la? 


Colar da Ordem da Zabumba Inconclusa. ©Xavier Garcia y Mesa

-Bom, na realidade significa que sou cavaleiro da Ordem da Zabumba Inconclusa.
 
-Ah... (silêncio). Bom, e que méritos fez para pertencer a esta ordem? 
-Então, olha... Eu paguei para entrar. Enfim, é... bom... bonita festa, né? Ei, eu te apresentei ao marquês do Álamo Estreito? 
Imaginem a cara do verdadeiro militar.
Essa conversa é perfeitamente aplicável em terras brasileiras nos dias de hoje. Há uma profusão de páginas na internet clamando supostos direitos de herança sobre títulos nobiliárquicos e soberanos. Algumas destas chegam a distribuir entre os seus leitores, amigos e colaboradores "títulos honoríficos". Em algumas páginas, contei, para apenas UMA PESSOA, 21 títulos, dentre eles quatro principados, três marquesados e seis títulos de Rei de Armas. SEIS! O que infelizmente só prova que uma parte dos heraldistas, mais usualmente os monarquistas megalômanos, tem um dedo nisso, ou pior, um braço inteiro nisso.

Sou aficionado por heráldica desde os meus 14 ou 15 anos, e nos últimos dois anos, passei a levar a matéria mais a sério, aproveitando a imensa quantidade de material de pesquisa sobre o assunto disponível na internet. Sou também defensor da Monarquia Constitucional, no Brasil. Não de uma Monarquia de extrema-direita como a maioria dos monarquistas nesta terra  defende, mas ainda assim, sou um monarquista. Mas se posso dizer que não sou algo é megalômano.

Dialoguei algumas vezes com esses tipos que se dizem condes, marqueses, príncipes e seja lá mais o que forem. Geralmente me pedem que produzam heráldica para eles, em troca de um título de nobreza ou um posto de Arauto, Passavante ou do gênero. Desse tipo de nobreza, Já sou Príncipe de Lisander, minha nação fictícia, e Grão-Mestre da Ordem do Arminho, ordem tão fictícia quanto a nação. Não preciso de nenhum título (a não ser que ele inclua vultosas somas em dinheiro, assim eu posso me sustentar vivendo sozinho numa capital de estado, o que não é muito fácil.)
Brasão de Armas do Príncipe de Lisander, com o colar da Ordem do Arminho.
Na vida real, comparado às dezenas de honrarias e títulos e honrarias que estão sobrando por aí, a pender e timbrar brasões por aí, sou bem mais modesto. Sou membro apenas da Ordem Sagrada dos Soldados Companheiros de Jacques DeMolay, popularmente conhecida como Cavalaria DeMolay, uma ordem paramaçônica juvenil. E nem esta tenho me dado ao luxo de ostentar, afinal já há dois anos, por conta dos estudos, estou afastado de qualquer função ativa nela. De que serve uma honraria a não ser para premiar méritos?

Faço minhas as palavras de Francesc Piferrer em seu ''Tratado de Heráldica y Blasón , que perfeitas para o caso da Ordem da Zabumba Inconclusa, também se adequam muito bem a todo este caso sobre o qual estivemos falando aqui.


Os pontos 13 e 15 são os melhores.

sábado, 29 de novembro de 2014

Uma pequena consideração a ser feita

A Heráldica é uma ciência viva, e como ciência viva, evolui com o tempo. Não é por estar à margem da lei vigente que deve se basear apenas em preceitos parcialmente obsoletos. Novas armas continuam sendo assumidas e registradas em todo o mundo, desde o Canadá até a Austrália.

Acredito que seja um retrocesso enorme ater-se à tradições formalmente abandonadas mesmo onde ainda adota-se a heráldica sob os auspícios do governo. Este é o brasão de Sir Elton John, Cavaleiro da Ordem do Império Britânico.
Este Sir nunca esteve em uma batalha, provavelmente nunca levantou uma arma para alguém. É abertamente gay há muitos anos, o que pode ser considerada uma grande vergonha para os tradicionalistas da nobiliarquia. Isso não o torna menos digno de paquifes e elmo do que ninguém. A heráldica é uma ciência viva, e sendo viva, ela evolui. Não há necessidade de se ater a tão obsoletos regulamentos.