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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Conta de Resultados

Hoje, cento e dez posts depois, sou o heraldista maduro que esperava ser quando comecei o Blog de Armoria, ainda como Atelier Heráldico. Naquela época eu tinha alguma vaidade de ganhar dinheiro como artista heráldico. Eu acreditava que poderia desenhar brasões e receber por isso.
Saudoso 2013...
Ainda tenho uma nesga de esperança nisso. Não muita, até porque muita coisa mudou na minha vida nos últimos quatro anos. Aprendi muita coisa, conheci muita gente legal e tive acesso a um mundo de informações. Em 2013, eu acreditava em toda sorte de farsantes vendendo títulos. Não conto nos dedos da mão a quantidade de "majestades" que me procuraram oferecendo a honra de ser Rei de Armas da Casa Real daqui e dacolá.
Que pensais que sou, ó nobreza de façaria?
Mas eu tenho o sonho de viver mais profundamente a Heráldica. Quero escrever sobre, quero trabalhar sobre, quero seguir minha carreira acadêmica adiante com isso em mente, ainda que o modus operandi do historiador do século XXI torne isto bem mais difícil. Quero chegar aos oitenta anos como um velho ranzinza, reclamando do descaso com a Heráldica no Brasil, apesar dos esforços que eu terei feito nos últimos sessenta anos, ou seja, os próximos.
Até o meu arminho cresceu !
Mas daqui até 2078 não dá pra dizer ainda. O que dá pra dizer é o que já aconteceu. E o que aconteceu foi: eu amadureci um bocado. Ainda não é tanto quanto eu quero, mas no final, quem está completamente satisfeito? Mas como eu disse lá no comecinho, já sou bem melhor heraldista do que o garoto que começou esse blog, há mil seiscentos e cinquenta e cinco dias atrás. E bem... É hora de evoluir.

E depois dessa Conta de Resultados, cujo nome eu fui emprestar da publicação de encerramento do blog do mestre-blogueiro-heraldista que eu tanto admiro e nunca conheci, Juan José Carrión Rangel, eu dou este Blog de Armoria por encerrado. Se precisarem de mim, eu estarei nos corredores virtuais do Heráldica Brasil.
Nada mais restando a tratar, fica apenas o meu Obrigado. Até outra ocasião!

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Como eu faço pesquisa heráldica

Recentemente eu expliquei, pela enésima vez, que brasões de família não existem, e que as armas são passadas a pessoas. Isso acontecia através das Cartas de Brasão, como por exemplo a da Baronesa de Sertório, que eu publiquei aqui anteriormente.

Munidos desta informação, algumas pessoas vieram me perguntar como eu fazia para encontrar as armas que se relatavam ao seu sobrenome, para conferir se de fato tinham direito ou não a usá-las. Após responder umas quatro vezes, decidi deixar aqui um tutorial, usando livros que eu já disponibilizei aqui no blog. Há mais livros, mais fontes, muitas delas estão em mau estado ou indisponíveis. Este é apenas um guia básico que vai permitir que você inicie a sua procura.

Um aviso. O Armorial Lusitano é dispensável.

É estranho quando você descobre que algo que você considerava essencial não é tão necessário para a sua pesquisa. Mas é isso mesmo.

Uma coisa que vocês precisam saber é: Praticamente todos os empreendimentos que vendem brasões são baseados em violação de Direito Autoral. O Armorial Lusitano não está em Domínio Público, então qualquer reprodução para fins comerciais é veementemente proibida. O que esses vendedores de imagens de brasões fazem é simplesmente copiar o texto que vem no Armorial Lusitano e desenhar o brasão com clip-arts semiprontos. O Armorial Lusitano também não fornece nenhuma prova ou indicação genealógica (ao menos não a edição que eu tenho acesso).



Em vez de idolatrar uma história falsa, e de perder tempo com o Armorial Lusitano por ora, vamos a fontes mais credíveis e o melhor, disponíveis de forma gratuita. Vamos começar procurando no "Armaria Portuguesa'' de Anselmo Brancaamp Freire, com um sobrenome aleatório: Gusmão.



Como vocês podem notar, há o brasão de um ramo de Gusmão na imagem acima. Mas vamos nos atentar o detalhe que eu marquei: C.B. em 1780 (A.H., 1563). Bem no começo do livro,nas abreviaturas, podemos ver que C.B. significa Carta de Brasão e que A.H. Significa Archivo Heraldico, mais especificamente, o Archivo Heraldico-Genealogico do Visconde de Sanches de Baena.

Sabemos então que este brasão de Gusmão aparece numa Carta de Brasão passada em 1780, e está registrado no Arquivo de Sanches de Baena sob o número 1563. Indo diretamente para este arquivo (também está no link acima), encontramos o seguinte registro.




Bom, já sabemos quem usou este brasão, e como usou. A partir daqui, pode-se começar a pesquisa genealógica, seja até o armigerado, seja a partir dele. Mas isto é assunto para outra publicação, talvez até mesmo para outro blog, afinal genealogia não é o meu forte.


De toda forma, aproveitem a dica e os livros!

terça-feira, 17 de maio de 2016

Breve armorial dos vice-reis do Brasil

Após dois anos de faculdade de Design, pensei muito e decidi mudar. Vou para História, um ambiente que pra mim, apaixonado por adquirir mais e mais conhecimento, parece ser uma ótima escolha, depois de dois anos às voltas com desenhos que não saem dos meus dedos e análises sob termos que me doem a cabeça.
Tem ainda o diferencial de ser perto de casa. Em tempos de crise, viver sozinho numa cidade grande acaba fazendo muito mal aos bolsos. Outro diferencial é que a heráldica, sendo uma área de conhecimento paralela à história, pode se tornar mais para frente, não apenas um hobby, mas quem sabe até uma profissão. Um curso de pós-graduação em heráldica seria um sonho. Grandes iniciativas nas quais eu me engajaria e faria de tudo para acontecer.

Mas antes das grandes iniciativas, vamos às pequenas. No último fim de semana, produzi um breve (talvez possa ser dito "brevíssimo") compêndio de desenhos das armas dos 15 vice-reis do Brasil. Uma diagramação simples, a impressora de casa e uma encadernação barata foram suficientes para a minha cópia da obra.


Até me perguntaram se eu não ia publicar em papel. Mas não o farei por três motivos.

  1. Há material de domínio público, utilizado nos desenhos. Não acho correto lucrar com o trabalho dos outros.
  2. Heráldica é um gênero editorial "de nicho". E quase todas as fontes que eu usei para esse trabalho estão disponíveis na internet. Provavelmente eu não venderia nem vinte cópias.
  3. É um trabalho definitivamente pequeno. O João Paulo Oliveira, heraldista alagoano, compilou os símbolos nacionais do Brasil desde 1815 até atualmente, e tem o dobro das páginas deste. A minha ideia era fazer realmente algo breve, então não faz sentido publicar fisicamente algo tão pequeno. Deixa para quando tiver bem mais material, e eu produzo um grande armorial luso-brasileiro como monografia de conclusão de curso superior.
 O Breve armorial dos vice-reis do Brasil pode ser lido aqui e baixado, de graça, no Scribd.


quarta-feira, 16 de março de 2016

As armas dos Brito

Esses dias, andando pela rua, vi um cartaz para uma festa beneficente, organizada pela Fundação Alzira Alves de Brito, uma entidade local de assistência a idosos.


Gosto de entidades assistenciais. Seu esforço por ajudar os outros me encanta. Ainda mais quando se representa com armas. É bem verdade dizer que sem uma pesquisa genealógica estas armas talvez estejam sendo exibidas de forma incorreta, mas dessa vez eu vou me ater mais às armas em si. Sobre direito a usar armas você pode ver esse post, onde eu falo um bocado sobre.

Hoje, vamos abrir as páginas do Armorial Lusitano e falar nas armas dos Brito, que aparecem no cartaz.
Armas dos Brito. O Leão é originalmente do Jussi Kärnä, desenhista heráldico finlandês.
 As armas dos Brito são de vermelho, nove lisonjas de prata apontadas e firmadas nas bordas do escudo, postas 3,3 e 3. Cada lisonja carregada de um leão de púrpura. Por timbre, o leão do escudo. Relata ainda o Armorial que estas armas são utilizadas na Espanha. O que confirma José de Avilés em seu livro Ciencia Heroyca, nos dando o seguinte brasonamento:

BRITO en España, y Portugal , trae de gules, y nueve Losanjes de plata; cargado cada uno de un Leoncillo del campo; esto es, de gules.

Notem que estes Britos usam os leões de cor diferente. Possivelmente isso se deve ao fato que em 1780, quando a obra de Avilés foi publicada, e com frequência até 2014, o leão que aparecia nas armas reais espanholas era vermelho. Apenas com a chegada de Felipe VI ao trono, o monarca espanhol voltou a apresentar o leão em sua cor correta, o púrpura.

Armas do Reino da Espanha, versão heraldicamente correta. As armas de Leão aparecem no segundo quartel.

Assim sendo, conclui-se que estes Britos armigerados possuem alguma ligação com o Reino de Leão. Voltando ao Armorial Lusitano, passo a citar:
"Fazem alguns autores tronco da linhagem a D. Haro, Grande senhor que viveu antes de D. Henrique (pai de Afonso Henriques, primeiro Rei Português)."
Pois, se antecede a Dom Henrique, era senhor vassalo dos Reis de Leão, o que justifica perfeitamente a escolha de armas.

Uma última curiosidade. Esta aprendi recentemente, no Dibujo Heráldico, do Xavier Garcia (Link na barra lateral do blog). Ao se brasonar em espanhol, pode-se trocar o termo leones por leoncillos, quando os animais aparecerem no escudo em um número superior a quatro.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Minha boa ação diária

Imaginem os senhores, ontem à noite levei com uma chuva torrencial, e para piorar minha situação perdi um dente da frente, do aparelho ortodôntico (adolescentes...). Hoje de manhã, acordei cedo, com alguma esperança de encontrar o dito cujo, mas numa rua de pedras, é claro que não que não consegui. Voltando para casa, na mesma rua, deparo-me com o seguinte adesivo no vidro de um carro.

Mas bem, esse não é o brasão da família Dantas (D'Antas/ Antas). Esse foi criado a partir de uma descrição errada, que coincidente é a primeira imagem no Google. Os motivos de não acreditar no Google para encontrar brasões de família, já informei-os aqui anteriormente. O brasão dos Dantas é de vermelho, com 6 lisonjas de azul, perfiladas de ouro, apontadas em cruz, quatro em pala e três em faixa.


Munido da minha boa vontade, e de certo modo, de um pouco de "Vergonha Alheia", desenhei com unss lápis de cor que tinha a versão correta, e um pequeno aviso: "AO DONO DO CARRO: CONSERTE O SEU BRASÃO". Voltei lá e deixei o papelzinho no limpador de para-brisas do carro. 

Ok, o desenho não é dos melhores, mas a atitude ao menos é louvável. E espero mesmo que o proprietário do veículo arrume aquilo.

Como se não bastasse para um dia, estava voltando da tal ação, e encontrei mais esse:

Bem... lá vamos nós outra vez.



sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Porque procurar Brasões de Família no Google é perda de tempo

Quando eu comecei a me interessar por heráldica, fui direto ao óbvio, saber se o meu sobrenome, Lúcio, tinha um brasão. Eu tinha só 14 anos e nenhuma experiência no setor, além das visitas à lojinha dos brasões durante as férias*. Comecei minha pesquisa no "confiabilíssimo" Google Imagens, onde encontrei isto:
(Escudo da Família Lúcio. Não a minha.)

Evidentemente, sem nenhuma ligação com a minha família. O que anos depois confirmei quando consegui uma cópia do Armorial Lusitano.

LÚCIO. Família Flamenga, que passou a Portugal por Adrião Lúcio, fidalgo, que pediu a D João III lhe mandasse registrar nos livros do reino as armas que trouxe do seu país, as quais eram: De azul, uma ribeira ondada de prata, posta em banda, carregada de um Lúcio de sua cor e ladeada de dois Leões de ouro armados de vermelho, afrontados e trepantes. Timbre: Um dos leões do escudo, com o peixe na garra direita.

Os anos passaram, e lá estava eu, dias atrás, seguindo costumeiramente a minha vida comum, quando me deparo com uma atualização no grupo familiar do Facebook. Uma das líderes do grupo posta exatamente o mesmíssimo brasão, aquele dos anos 1500. Minha reação foi esta:
(Peço desculpas pelo GIF, mas a minha reação foi exatamente essa.)

E sim, eu tentei defender a ideia óbvia. Mas ela não foi bem aceita, como eu já esperava. Inventaram até desculpa pra usar um brasão que não pertence à família, o que eu achei realmente vergonhoso. Usurpar um brasão de armas, quando não há nenhuma lei que proíbe a criação de um inteiramente novo, chega a ser ridículo. E tudo isso porque esta imagem aparece com o sobrenome da família no Google Images.

É necessário esclarecer que NÃO EXISTEM brasões de sobrenomes. O que existe é o BRASÃO DE FAMÍLIA, que passa de pais para filhos. Não é porque eu tenho o sobrenome de alguém que usava esse brasão que eu vou ter direito a usá-lo. Deixe-me ver aqui um exemplo.

Eu tenho dois conhecidos chamados Cláudio e Renata. Cláudio Cruz mora em Portugal, e Renata Cruz mora na mesma cidade que eu, no Brasil. Eles tem o mesmo sobrenome, mas qual é a possibilidade real de os dois terem algum parentesco? Nenhuma. Eles não se conhecem, e provavelmente nunca se conhecerão. Se eles não possuem nenhum parentesco, não tem sentido algum usarem o mesmo brasão. Da mesma forma, a minha família Lúcio e a família Lúcio do século XVI. Mas isso é algo que a maioria das pessoas não presta atenção.

E é assim que alguns "heraldistas" inescrupulosos lucram uma boa grana, "vendendo" brasões falsos como sendo reais. Sites como este usam a Heráldica para vender quinquilharias. A não ser que você ou sua família sejam, provadamente, os legítimos descendentes de quem usou aquelas armas, você estará apenas gastando seu dinheiro com uma mentira.

Algumas outras pessoas, "mais espertas", pulam a fase dos vendedores e vão direto se apossando de algo que nem se sabe se é dela, ou de sua família. Pegam o primeiro brasão que acham no Google e fazem dele um objeto de culto, acreditando-se nobres por aquilo. Esquecem-se que a nobreza está nas atitudes. O brasão só representa isso de uma forma artística. Pessoas assim não honram o brasão que tem, muito menos o do qual se apossaram indevidamente.