sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Novas informações que me aparecem nos livros

Recentemente, comprei um exemplar de Princípios de Heráldica, da Vera Lúcia Bottrel Tostes. E estava folheando-o quando encontrei a seguinte imagem, referente a linhas. Ao lado das linhas ondulada, endentada, crenulada, denticulada e etc, aparece esta aqui, denominada linha em nó. 


Em todo esse tempo tendo a heráldica como hobby, não consigo me lembrar se vi uma linha destas em nenhumas armas. Será que essa informação está correta? Alguém tem mais informações sobre usos desta linha?

EDIT: O Leonardo Piccioni, grande Heraldista e Vexilólogo, editor do excelente blog Brasiliana Heráldica, me mandou mais informações sobre a peça. 

O nowed ou nouée aparece na heráldica britânica e francesa, como por exemplo nas armas da vila de Matignon, no noroeste francês, que são derivadas das da família Matignon.

Armas da Vila de Matignon: De ouro, duas faixas em nó de gules
acompanhadas de nove merletas do mesmo, postas 4,4 e 1.
Armas da Família Matignon, num selo de 1289:
De ouro, duas faixas em nó de gules, acompanhadas de
oito merletas do mesmo, em orla.

Outro fato interessante é que também se pode representar o nó por uma faixa com um círculo. Anteriormente, eu havia notado que alguns brasões de localidades francesas tiveram seu conteúdo de certa forma simplificada, pelo menos nos arquivos públicos da Wikimedia Commons.

Ficam aqui os meus agradecimentos ao Leonardo, que através do Heráldica Brasil tem ajudado a disseminar conhecimento Heráldico pela internet. E quem ainda não está por lá, siga o link acima e venha compartilhar suas dúvidas e conhecimentos com a gente!

domingo, 14 de junho de 2015

Você compraria uma loja de Heráldica?

Eu estava passeando pela internet hoje, quando notei que o Heráldica Pelotense foi fechado e seu espólio colocado à venda.

Quando eu era apenas um curioso iniciante em Heráldica (não que eu não seja mais curioso, mas bem no passado), o site deles era um dos meus preferidos. Vendo num contexto simplório, pode-se dizer que essa página foi, por longos 19 anos, uma bucket shop, como costumeiramente se diz nos círculos anglófonos de heráldica. Ainda assim, é inegável que por obra dos proprietários deste site, a heráldica foi ao menos um pouco mais popularizada


Página da Heráldica Pelotense. Se eu fosse milionário, eu compraria.

Se este espólio colocado à venda fosse apenas de livros, eu até pensaria em fazer algumas ofertas, visto que agora comecei a comprar volumes físicos de heráldica.

Encontrei uma cópia desse livro num sebo por aqui.

Se alguém estiver interessado, pode mandar um e-mail para eles. E caso haja material que possa ser disponibilizado na internet, acho que não só eu, mas toda a comunidade heráldica apreciará bastante.

E você, leitor, se tivesse dinheiro para isso, compraria a loja?

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Eduardo e a Liga

A Liga, por Rs-Nourse @Wikimedia Commons
A heráldica sempre foi uma matéria onde homens tiveram precedência. Mas vez por outra, mulheres participaram ou foram responsáveis por histórias que acabaram por refletir na ciência e arte da Heráldica. Hoje, tenho mais uma história.

Assim como já contei, anteriormente, a história de Ana da Bretanha, de forma mais ou menos fictícia, hoje trago uma outra. De como o Rei Eduardo III da Inglaterra criou uma das mais importantes Ordens Honoríficas do Mundo, movido por honrar uma de suas amantes, Catherine Montacute.


Conta-se que Eduardo III era apaixonado por Catherine Montacute, Condessa de Salisbury. Em 1341, fez com que até mesmo um cerco que tinha sido armado ao castelo onde ela estava fosse desfeito, apenas para encontrá-la na ausência do marido.
Mas a cena que mais se conta é a seguinte:
Calais, 1348.
O Rei Eduardo, um cavalheiro, aproveita um baile em sua corte. Decerto, olhos atentos a Catherine. Desejoso de estar com a sua amante,  (Mas que Rei não estaria?) tira-a para uma dança. A determinado momento, a liga azul que prendia a meia de Catherine solta-se e cai. Prestativo, Eduardo apressa-se a devolver-lhe a peça de vestuário, diante dos olhares e sorrisos maliciosos e trocistas das pessoas ali presentes. Catherine, atingida por aqueles olhares maldosos, como que dissessem "Esta liga já caiu em outros momentos. Todos já sabem aqui que és tu que deita-se na cama do Rei", perturba-se e chora.
Eduardo III, via cigcardpix@Flickr

Vendo aquela cena, o Rei parecia irritado. Evidentemente, não gostou que aquele tratamento fosse dado à Catherine. Ora, ela era sua amante, e ele era o Rei. Ninguém tinha nada a ver com aquilo. Ele era o Rei, e podia ter amantes. Aquilo era comum para a época. Quem o impediria? 
Honni soit qui mal y pense! Tel qui s'en rit ajourd'hui, demain s'honorera de la porter!
-Envergonhe-se quem vê malícia nisto! De forma que riem hoje, amanhã se honrarão de portá-la. - Eduardo trazia a liga na mão e devolveu-a em seguida a sua legítima dona.
Insígnias da Ordem da Liga
Dito e feito. Logo a Ordem da Liga ou Ordem da Jarreteira (em inglês, Garter) era, como ainda é até hoje, a mais importante Ordem do Sistema Honorífico Britânico.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Pelo bem do método.

Posso estar enganado, e bem, espero que esteja. Mas acredito que há gente muito pouco gentil no ramo heráldico. Reitero que não sou um megalômano. Heráldica não é minha vida, não ganho um centavo pela tarefa de escrever este tedioso blog. Não ganho porque não quero, não sou a favor de encher um blog de publicidade, de tal forma que todo ele acabe se tornando uma grande vitrine.

Por isso, também não cobro um centavo sequer quando forneço ajuda com heráldica aos que me pedem, não vendo meus desenhos heráldicos nem os faço por encomenda em troca de qualquer pagamento em dinheiro.

Eu não sou um desses caras. Não acredito que Heráldica tenha de ser caro e chique.
Na minha página do DeviantArt, posto sempre minhas mais recentes Peças Heráldicas digitais, e lá, aceito comissões por pontos. Para os leigos, pontos são uma espécie de moeda no DeviantArt, que permite melhorar o perfil, adicionar subpastas no seu catálogo de posts, dentre outras melhoras. Lá eu peço points, porque com eles teria uma melhor usabilidade no serviço. Mas sigo sem aceitar nenhum dinheiro. Não acredito que Heráldica tenha de ser algo caro e chique. Não acredito que tenha de ser esnobista. Não acredito que tenha de ser floreada. Não é pra isso que ela serve.
A cena errada, o momento errado, a ocasião perfeita
A Heráldica é uma forma de identificação. Heraldistas são os guardiões deste método, da ciência criada para compreender a identificação. Está em suas mãos o poder de compreender e transmitir tal método. Ao encontrarem incorreções, é importante que as tragam à tona. Meu pai diz que "quem encobre o malfeito, faz pior do que quem o malfeito fez." Radical? Sim. Ácido? Totalmente. O método é claro, está escrito, preto no branco. A forma com que alguns heraldistas agem, condescendentes e comodistas, ultrapassando o método por vaidade, utilizando-se de  convicções pessoais, conjecturas e ideias de outras ciências humanas para isso é nada menos que estúpida.

Não nego que também faça isso. Porque provavelmente eu também o faço.

O método é o correto. Suas adaptações devem ser tratadas com cuidado e seus desvios devem ser extirpados. A última frase me lembrou de Huxley e Orwell. O certo é o certo e o errado é o errado.

Mas somos humanos e ninguém está sempre certo. Eu também estou errado, os outros também estão errados. Por desatenção, por desleixo ou mesmo por má-fé. Ninguém pode estar certo todo o tempo. Como alguém que li uma vez, que dizia que se outro estava descontente com o cenário da Heráldica que existia, fosse lá e criasse uma instituição para normatizá-la. Mas pra que isso? A Heráldica só necessitará de uma normatização quando tivermos um governo que a trate como deve ser tratada. Normatização não é necessária atualmente. Respeitar o método sim.

Faz-se mais levando conhecimento de forma criteriosa do que apontando falhas. Precisa-se ensinar o método, e não utilizá-lo se dele (ou de qualquer outra coisa) para julgar-se mais correto sobre qualquer coisa.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A Nova "Nobreza" da internet.

Antes de ser um blogueiro sobre heráldica, gosto muito de ser um leitor. Sou leitor assíduo do Dibujo Heráldico, do Xavier Garcia e Mesa, bem como (e até ainda mais) do Crónicas Heráldicas, do Juan José Carrion Rangel.

Estava novamente lendo estes dias, durante as minhas férias, e encontrei um excelente diálogo, evidentemente fictício, tratando da "ostentação" que alguns fazem sobre seus brasões, títulos e suposta "nobreza". Passo a citá-lo, em tradução livre:

E um diálogo entre um verdadeiro militar (com tão somente uma ou duas medalhas após trinta anos de serviço e um par de missões na Ásia) e um cavaleiro de alguma destas "ordens", com o peito coberto de metal tilintante, poderia ser similar a isto.

-E todas estas medalhas, de que são?
-Já te digo. 
-Essa grande cruz vermelha, por exemplo. O que fez para ganhá-la? 


Colar da Ordem da Zabumba Inconclusa. ©Xavier Garcia y Mesa

-Bom, na realidade significa que sou cavaleiro da Ordem da Zabumba Inconclusa.
 
-Ah... (silêncio). Bom, e que méritos fez para pertencer a esta ordem? 
-Então, olha... Eu paguei para entrar. Enfim, é... bom... bonita festa, né? Ei, eu te apresentei ao marquês do Álamo Estreito? 
Imaginem a cara do verdadeiro militar.
Essa conversa é perfeitamente aplicável em terras brasileiras nos dias de hoje. Há uma profusão de páginas na internet clamando supostos direitos de herança sobre títulos nobiliárquicos e soberanos. Algumas destas chegam a distribuir entre os seus leitores, amigos e colaboradores "títulos honoríficos". Em algumas páginas, contei, para apenas UMA PESSOA, 21 títulos, dentre eles quatro principados, três marquesados e seis títulos de Rei de Armas. SEIS! O que infelizmente só prova que uma parte dos heraldistas, mais usualmente os monarquistas megalômanos, tem um dedo nisso, ou pior, um braço inteiro nisso.

Sou aficionado por heráldica desde os meus 14 ou 15 anos, e nos últimos dois anos, passei a levar a matéria mais a sério, aproveitando a imensa quantidade de material de pesquisa sobre o assunto disponível na internet. Sou também defensor da Monarquia Constitucional, no Brasil. Não de uma Monarquia de extrema-direita como a maioria dos monarquistas nesta terra  defende, mas ainda assim, sou um monarquista. Mas se posso dizer que não sou algo é megalômano.

Dialoguei algumas vezes com esses tipos que se dizem condes, marqueses, príncipes e seja lá mais o que forem. Geralmente me pedem que produzam heráldica para eles, em troca de um título de nobreza ou um posto de Arauto, Passavante ou do gênero. Desse tipo de nobreza, Já sou Príncipe de Lisander, minha nação fictícia, e Grão-Mestre da Ordem do Arminho, ordem tão fictícia quanto a nação. Não preciso de nenhum título (a não ser que ele inclua vultosas somas em dinheiro, assim eu posso me sustentar vivendo sozinho numa capital de estado, o que não é muito fácil.)
Brasão de Armas do Príncipe de Lisander, com o colar da Ordem do Arminho.
Na vida real, comparado às dezenas de honrarias e títulos e honrarias que estão sobrando por aí, a pender e timbrar brasões por aí, sou bem mais modesto. Sou membro apenas da Ordem Sagrada dos Soldados Companheiros de Jacques DeMolay, popularmente conhecida como Cavalaria DeMolay, uma ordem paramaçônica juvenil. E nem esta tenho me dado ao luxo de ostentar, afinal já há dois anos, por conta dos estudos, estou afastado de qualquer função ativa nela. De que serve uma honraria a não ser para premiar méritos?

Faço minhas as palavras de Francesc Piferrer em seu ''Tratado de Heráldica y Blasón , que perfeitas para o caso da Ordem da Zabumba Inconclusa, também se adequam muito bem a todo este caso sobre o qual estivemos falando aqui.


Os pontos 13 e 15 são os melhores.