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domingo, 14 de fevereiro de 2016

Heráldica e Humor

Passados os dias de Carnaval, os quais passei bebendo e comendo como um personagem d'As Crónicas de Gelo e Fogo, cujas armas são
De ouro, um veado de negro, coroado.
Robert Baratheon por Felipe Nanni @ DeviantArt

É hora de reiniciar a atividade neste tedioso blog, meus caros leitores.

Para hoje, ainda a passo moroso, temos um vídeo que foi recentemente postado no Dibujo Heráldico, blog do do Xavier García do qual eu sou fã de carteirinha. Trata-se de uma conferência sobre Heráldica realizada pela Escuela Marqués de Avilés, apresentada por Don José Luís Sampedro Escolar e Don José Antonio Vivar del Riego. Cujo tema é Heráldica e Humorismo.

 

Acho que foi a barreira do idioma que me impediu de rir. Mas quem quiser assistir e me explicar, fico agradecido :D

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Heráldica Atribuída: Princesa Branca de Neve

Houve uma vez, num reino distante, um certo rei. Este rei teve de sua primeira esposa apenas uma filha. A Rainha era uma mulher muito bondosa, sempre pronta a ajudar as pessoas do reino. Numa noite de Inverno, a rainha caminhava pela neve, quando viu uma bela rosa. Ao tocá-la, foi ferida e três gotas de sangue saíram de seu dedo. A boa rainha então falou: 
-Ah, como eu queria ter uma filha, e que ela tivesse os lábios vermelhos como o sangue, o cabelo negro como a noite, e a pele branca feito a neve. 
E logo o pedido da rainha foi atendido, e nasceu uma princesa naquele reino. Assim como a rainha pedira, a menina nasceu. Ela tinha os lábios vermelhos como o sangue, os cabelos negros como a noite e a pele branca feito neve. Deram-lhe o nome de Schneewittchen. Em nossa língua, Branca de Neve. 
Mas pouco tempo depois, uma doença tirou a vida da boa rainha, que infelizmente não pode ver a bela princesa crescer. O Rei então voltou a casar-se, com outra mulher muito bela. Dizia-se que essa nova esposa praticava feitiçarias, pois nunca antes sua majestade fora tão completamente submisso a uma mulher. 
Feitiçaria ou não, algum tempo após o casamento, morreu também o Rei, deixando sua nova rainha como regente, e a pequena Branca de Neve, Órfã. Apesar da menina ser a legítima herdeira do Reino, cabendo à sua madrasta apenas conseguir-lhe um marido para manter viva a linhagem real, Branca cresceu sem nunca ter papel ativo no reino. A Rainha, opulenta e ambiciosa, comandava o reino a seu bel-prazer, vendo tudo o que acontecia em seu espelho mágico. Este espelho possuía vida. Talvez a alma de um antigo feiticeiro ou algo assim. Todos os dias, a megera ia até o tal espelho e perguntava. 

-Espelho, espelho meu: Existe alguém mais bela do que eu? 
O espelho, que tudo podia ver, respondia sempre: 
-Não, Milady, Vossa Majestade é a mais bela de todas. 

Os anos foram passando, a menina Branca tornou-se uma donzela, tão gentil e bondosa quanto sua mãe. Claro, o espelho tomou conhecimento de sua beleza. E um dia, quando a Rainha fez sua tradicional pergunta: 
-Espelho, espelho meu: Existe alguém mais bela do que eu? 
O espelho deu uma resposta diferente: 
-És muito bela, Milady. Mas a princesa Branca de Neve é agora a mais bela de todas. 
De forma alguma! Nunca permitiria que seu poder fosse tomado. Nunca permitiria que aquela menina lhe tomasse nada, nem que tivesse nada. Menos ainda a beleza! Fervendo de ódio, fez chamar o chefe da guarda real, exímio caçador e amigo pessoal do finado rei, e deu-lhe uma ordem extremamente cruel. 
-Caçador, atendei a minha ordem. Leva a princesa Branca de Neve para a Floresta, mata-a e como prova traz-me nesta urna de prata o coração dela.
O homem recebeu a urna e saiu. No entanto, como mataria a herdeira legítima do Reino? Que ordem absurda era aquela? 
Foi até os aposentos da princesa e a chamou para irem até a Floresta. Quando chegaram em um local suficientemente afastado, a moça perguntou: 
-Senhor caçador, para onde vamos? e para que trazes esta urna? 
Com voz preocupada, o caçador falou à jovem princesa. 
-Branca de Neve, fuja agora. A Rainha está louca. Ela quer vê-la morta, hoje mesmo pediu-me o vosso coração. Pediu que eu a matasse e levasse vosso coração nesta urna. Em nome do Rei seu pai, jamais faria isso. Fuja agora enquanto pode. Fuja para outro reino onde pode ser acolhida, fuja para longe do castelo da rainha má e assassina. Fuja! 
O caçador então afastou-se dela, saindo em busca de um animal selvagem. Achou um javali. Matou-o, e arrancando o coração do animal, colocou-o na urna de prata e levou para a rainha, que ficou extremamente satisfeita. 
Branca, horrorizada com aquela revelação, fugiu. Com medo, fugia e chorava. Correu e chorou pela floresta por toda a noite. Estava exausta, faminta e morrendo de medo. Quando já pensava em dormir encostada num tronco qualquer, viu uma pequena casa.
Aproximou-se e bateu na pequena porta. Estava aberta, então entrou, desesperada por ajuda. Na casa era tudo pequeno, desde os pratos e as cadeiras até as prateleiras e mesmo as camas. Tudo multiplicado por sete. Branca comeu as sobras de um mingau que estavam no fogo, juntou as sete caminhas, e esgotada depois de uma noite horrível de fuga e choro, deitou-se e dormiu. 
Naquela casa moravam sete anões que trabalhavam numa mina próxima. Voltando do trabalho, encontraram sua casa aberta, sua comida esvaziada e uma estranha moça dormindo em suas camas. 

Ao acordar, Branca contou-lhes sua triste história. Os anões, apiedados da história da princesa, permitiram que ela ficasse. 
Enquanto isso, no palácio real, a rainha foi até seu espelho. Não haveria mais dúvida agora. Branca de Neve fora morta na noite anterior. Ela seria a mais bela mulher do reino. Para a sua surpresa, o espelho respondeu: 
-A princesa Branca de Neve, Milady, é ainda a mais bela de todas. Sua alteza ainda vive, na casa dos anõezinhos que trabalham nas minas. 
Furiosa e vingativa, a Rainha má decidiu dar um fim em Branca de Neve ela própria. Disfarçou-se de velhinha vendedora de maçãs e foi até a floresta naquela noite. Levava consigo uma cesta de frutas, e uma delas estava envenenada. 
Branca de Neve, sem saber o que a aguardava, ficou na casa dos anões enquanto estes foram cumprir sua jornada diária nas minas. Naquela noite, uma velhinha bateu à porta.
-Minha filha... poderia por gentileza comprar uma maçã desta pobre velhinha? - a Rainha, disfarçada, ofereceu a maçã à jovem princesa. 

-Perdoe-me senhora, mas também sou pobre. Não tenho nem uma moedinha para lhe dar... - Branca, entristecida por não poder ajudar a "pobre senhora em necessidade", respondeu. 
-Oh... Mas que menininha honesta. E é tão bela... Por tanta honestidade e tanta beleza, merece mesmo que eu dê-lhe de graça! Vamos, pegue e dê uma dentada! - A rainha gargalhava por dentro quando ofereceu a fruta envenenada à princesa. 
Quando Branca de Neve mordeu a maçã, o veneno a derrubou de imediato. A rainha se afastou com uma gargalhada cínica: 
-BRANCA DE NEVE! JÁ NÃO ÉS A MAIS BELA! 
Na manhã do outro dia, quando os anões chegaram encontraram Branca de Neve desmaiada. Julgando-a morta, prantearam todo o dia. 
-Não podemos deixa-la sobre a terra fria - disse um dos anões. 
Os homens construíram então um caixão de cristal para Branca de Neve. Escreveram nele, em filigrana de ouro, que aquela era a filha do finado rei. Carregaram o esquife até a floresta e a seu lado puseram um escudo. 

Nesse meio tempo, o caçador conseguiu alertar os nobres do reino sobre as intenções da Rainha. Houve grande comoção e vários cavaleiros passaram a procurar pela floresta, tentando achar a princesa. Entre eles, o jovem príncipe de um reino vizinho.
 
Cavalgando pela floresta, o jovem encontrou a urna de cristal e à volta dela os anõezinhos. A jovem que jazia dentro do caixão era bela. Aqueles cabelos, aqueles lábios e aquela pele eram inconfundíveis. Aquela era Branca de Neve. O príncipe ficou encantado. Mas ela já estava morta? Como podia? A morte não lhe fazia efeito. Continuava bela e vívida. O Rapaz não se conteve. Destampou o caixão e beijou-a. 
Como se fosse um milagre, Branca de Neve acordou. Para a alegria dos anões e dos animais da floresta, a princesa não estava morta. Branca de Neve então foi levada até o reino vizinho, onde recebeu o apoio e o juramento de lealdade de seus nobres. Marcado o casamento, a hoste dos nobres leais ao velho rei, engrossada pelas tropas do reino vizinho, invadiu e retomou o palácio, expulsando a rainha má. 
Meses depois, Branca de Neve e o Príncipe se casaram, e o Reino voltou a viver em completa paz e harmonia.

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É um bonito conto de fadas, escrito sob a supervisão da minha irmã de dez anos. A última figura, da Branca de Neve em seu caixão de cristal, com um escudo ao lado. Esse escudo, obviamente fictício, foi desenhado na imagem pela artista austríaca Marianne Stokes. Acho que dá pra supor algumas coisas a partir da leitura.

1. Para haver príncipes de reinos vizinhos, o reino da Branca de Neve deveria ser um pequeno Reino integrante do Sacro Império, por volta dos anos 1400 ou 1500.

2. O escudo na imagem é realmente um escudo, e não uma lisonja ou escudo oval, então essas devem ser as fictícias armas do finado Rei, pai de Branca, e por consequência, do reino.

3. Os irmãos Grimm eram alemães, mais precisamente da região central da Alemanha Atual (Hesse), uma área que era consideravelmente fragmentada na época do Sacro Império.

Assim sendo, e pensando em Branca de Neve como única herdeira, já que não havia filho homem para herdar os títulos ou brasões, pelo menos até que ela gerasse um filho, podemos considerar que essas são as próprias armas de solteira de Branca, Princesa de ???


Armas da Princesa Branca de Neve, segundo Marianne Stokes:
Partido. 1 de ouro, chefe de negro carregado de uma coroa antiga
do primeiro. 2 de vermelho, com uma brica de ouro
Este artigo foi inspirado no post "Blancanieves" do blog Dibujo Heráldico, mas minha irmã disse que eu tinha de escrever a história direito. E saiu isso.

Um feliz dia das crianças a todos os filhos, sobrinhos, netos e primos de heraldistas!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

As armas da heráldica


Hoje, trago com atrasada felicidade um novo post traduzido. Dessa vez é do grande Juan José Carrión Rangel, dono das armas na bandeira acima, e também do famosíssimo (e aposentado) Blog de Heráldica, agora substituído pelo novo Crónicas Heráldicas. O post escolhido foi a proposição de Rangel para um escudo que representasse a heráldica como comunidade.

O Maestro Dom Xavi Garcia, Conde de Puig de Sabadell no Reino de Maestrazgo, cujas distintas armas são as que se seguem,

propôs um brasão para o conjunto desta ciência heráldica. Brasão esse que reproduz, sobre um partido das duas peles fundamentais, escudetes com as cores e metais.

Resultam otimamente criadas, ao compor todos os esmaltes e peles. Além disso, foram aceitas por toda a comunidade heráldica, como conjunto, e assim sendo, as acato.

Mas, lamento discordar, não me convencem. Elas Lembram efetivamente às que há poucos dias enviou-me Dom Ion Urrestarazu. Aquelas que apareciam em um armorial antigo.

Mas, porque dispor os esmaltes como símbolo de nossa ciência? Discordo, mas insisto que, se tiverem sido admitidas pelo conjunto de heraldistas, devo assumi-las.

Nossa espécie chegou ao domínio da superfície emersa do planeta através de uma série de mecanismos. O primeiro deles foi, sem dúvida, a capacidade de adaptação ao ambiente à nossa volta. Dizem os sábios que a ligação com o passado ajudou muito ao êxito da curiosidade. Curiosidade que fez com que membros de nossa espécie quisessem saber o que havia para além da linha do horizonte; porque crescia uma planta onde um ano antes haviam jogado sementes; e também socialmente, por que alguns indivíduos ostentavam privilégios que outros não possuíam.

Hoje se conhecem os mecanismos que movem os impulsos sociais. Assim, se sabe que se copiarão os modos dos que ocupam os postos que o conjunto considera mais elevado. Os privilegiados de uma sociedade, aqueles que ostentam os mais altos postos da hierarquia social e consequentemente mais endinheirados serão o espelho sob o qual o resto dos concidadãos se projetará para tentar alcançar um estilo de vida similar.

Desta forma, lhes copiarão, na medida do possível, nas formas de lazer, de se vestir, de se comunicar, etc...

Não é necessariamente negativo, este mecanismo hierárquico. Copia-se aos que ocupam os patamares mais altos e dessa forma se gera um avanço social generalizado.

Sempre foi assim. Goste-se ou não, este mecanismo de conduta existe. Proponho um exemplo: Se os que ocupam os postos mais privilegiados na atualidade começam a praticar um esporte, serão copiados por cada vez mais pessoas. Se começam a vestir uma roupa nova, o resto da nação também o fará. Se passam suas férias em determinado lugar, o conjunto de cidadãos igualmente fará planos para ir ao mesmo lugar quando for possível.

E a comunidade heráldica, da mesma forma, deve se espelhar em quem ocupa os postos de mais alcance, mais importância, mais responsabilidade em matéria de Armaria.

Quem exerce tradicionalmente o máximo escalão na hierarquia da comunidade heráldica? Os reis de armas.

Sim. Nos reinos que ainda os mantém, com certeza todos os interessados em heráldica desejam alcançar esses postos.

E o mecanismo é bom: para consegui-lo, estudarão a fundo nossa ciência, cultivarão relacionamentos, se prepararão para obter os conhecimentos necessários.

Em consequência de todo o exposto, este redator propõe que as armas da heráldica reflitam o mais alto nível hierárquico alcançável: o ofício de rei de armas.
E que figura o representa? Efetivamente, improvável leitor, a própria coroa de tão alto cargo.

Como campo do escudo, seguindo ao licenciado Dom Pedro Luis Bengoechea, presbítero, em sua obra Los Rújula, de 1926. Proporia o azul, porque segundo explicou tão sábio sacerdote: “Esta é a cor que deve constituir o único objetivo daqueles [os reis de armas]: o céu”.
Desenho feito por mim, o tradutor.

Nada mais, improvável leitor. Lamento discordar do resto.

Por fim, deixo aqui o link da publicação original, para que todos prestigiem o ótimo blog do Juan:
http://cronicasheraldicas.blogspot.com.es/2014/01/las-armas-de-la-heraldica.html 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Paletas de cores

Hoje o post não é meu, mas sim uma tradução de um excelentíssimo post do Xavier Garcia, escritor do brilhante Dibujo Heráldico, um dos meus blogs favoritos no que se refere a Heráldica, sobre uma dúvida comum que eu vejo entre os menos entendedores da ciência dos brasões.

"Qualquer sistema atual para organizar as cores, tipo Pantone, RGB, etc, é muito mais moderno do que o que havia no início da heráldica. É por isso que não há uma única tonalidade válida para representar os esmaltes. Assim como cada maestro tem o seu livro de partitura, cada um pode usar a paleta de cores que preferir."
As paletas que o Xavier Garcia usa são essas:

Nos projetos nacionais de heráldica na Wikipédia, cada idioma usa tons diferentes.

Wiki em Catalão

Wiki em Espanhol

Wiki em Francês

O governo espanhol usa esta para o desenho governamental do brasão do país:

Atualmente eu uso estas duas paletas:

No post original do Xavier há ainda mais algumas paletas, mas acredito que estas já são suficientes para que se note a diferença.

Se você olhar em armoriais, você vai ver que cada um usa suas próprias cores. Bem, ninguém pode dizer que um esmalte deve ser. Sempre se pode recomendar o uso de certas tonalidades, mas, mesmo que se pinte com outros, enquanto se distinguir cada esmalte incluído claramente, o desenho estará heraldicamente correto. Esta é uma vantagem heráldica para representar símbolos.

Também gostaria de comentar que em desenho técnico de brasões de armas, você só pode usar uma única tonalidade para cada cor. Gradientes ou outros efeitos artísticos não são permitidos. O desenho deve ser de cores planas, sem gradientes.

Sem mais, me despeço, deixando mais uma vez aqui o link do post original do Xavier Garcia, que está em http://dibujoheraldico.blogspot.com.br/2011/06/paletas-de-colores.html. Em espanhol.